| António Polido |
| As fontes que venceram o sono |
06.09.06 |
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Metade da vida de António da Graça Polido, foi passada em Elvas, cidade onde trabalhou, primeiro como cantoneiro de vias e depois como fiscal de de obras e construções.
Aos 78 anos, este antigo funcionário da Junta Autónoma das Estradas, descobriu a arte e o jeito para esculpir peças em madeira, como resposta a uma sugestão da filha para combater, imagine o leitor, o sono.
Os seus trabalhos, reproduzindo o acervo magnífico das fontes de Nisa, esteve patente ao público na Biblioteca Municipal até 2 de Setembro, numa exposição que despertou vivo interesse e foi bastante apreciada.
Reformado desde os 64 anos, António Polido arranjou um bocado de terreno e dedicou-se à agricultura, pois, “parar é morrer” e vida é uma palavra de que este nisense conhece bem o valor, já que aos 42 anos teve um enfarte.
Vendida a parcela de terreno, um novo dilema se lhe colocou: o que fazer?
Um problema de difícil solução, para mais confrontado, devido à medicamentação, com uma apetência desmesurada para dormir.
A filha, professora em Portalegre, sugeriu-lhe que arranjasse uma ocupação e que se dedicasse a fazer pequenas peças de artesanato, como forma de vencer a sonolência.
Que não tinha jeito, respondeu-lhe o pai. Mas, entre a insistência da filha e os pesadelos que não o largavam, António Polido ganhou força, encheu-se de brio e meteu mãos à obra. Muniu-se de madeira apropriada, experimentou fazer pequenas peças (garfos, colheres, tarros), enfim, é ele quem o diz: “tomei-lhe o gosto”.
A sugestão inicial deu lugar a um desafio: “… e se eu fizesse as fontes de Nisa?” A primeira foi a que tinha logo ali à mão, a do Largo do Mártir, onde reside.
Seguiram-se outras, sempre apoiado e entusiasmado pela filha, até à peça mais arrojada: a Fonte do Rossio.
Foi vê-la, uma e outra e outra vez. Mirou-a e remirou-a, tirou apontamentos, fez desenhos e esboços, e do papel a Fonte saltou para uma peça magnífica em madeira de faia, esculpida a golpes de navalha, de orgulho e de prazer.
Como um menino que aprendeu as primeiras letras, António Polido fala com indisfarçável orgulho dos seus trabalhos.
“Nunca pensei fazer peças comos estas e muito menos fazer uma exposição, pelo que agradeço às pessoas que me têm apoiado, em primeiro lugar à minha filha, pois foi ela a principal responsável. Consegui fazer o que nunca supus ser capaz e agora até durmo melhor. Por isso quero agradecer a toda a gente que me apoiou.
Quanto às peças, todas me têm dado prazer. Utilizo madeira de faia, com plátano ou freixo dá mais trabalho, mas a peça fica mais perfeita. Todo o trabalho é feito à mão, a navalha ou canivete. A peça mais trabalhosa foi a Fonte do Frade, mas a Fonte do Rossio foi um desafio e a que me apliquei com maior afinco e entusiasmo, até para responder àqueles que me diziam:” essa não é para as tuas barbas!”.”
Mas foi e de que maneira. A beleza da fonte, a minúcia e qualidade do trabalho de António Polido, puderam ser apreciados na exposição que esteve patente ao público na Biblioteca Municipal de Nisa, despertando entre os visitantes diversas manifestações de simpatia e apreço.
O artista – porque de um artista se trata – promete não parar e alguns projectos estão já na “forja”. Vamos esperar até à próxima exposição.
Fotos e Texto: Mário Mendes
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