Bloco de Esquerda denuncia condições de habitabilidade degradantes
À espera de melhores dias
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Esgotos a céu aberto, detritos e entulho acumulados, um cheiro nauseabundo, barracas de metal, madeira e algumas de tijolo, a par com as ratazanas que “convivem” com os humanos. Este é o cenário que encontramos nas muralhas do Castelo de Campo Maior, onde residem, há muitas décadas, várias famílias de etnia cigana.
De facto são mais de cem pessoas, num total de 40 famílias que ali habitam em condições degradantes e infra-humanas que, em pleno século XXI, pensávamos já não existirem. Ali, o cheiro do café, tão presente nesta vila raiana, é substituído por outro que não tem descrição possível.
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Lurdes Rasquilha Trindade reside numa dessas barracas há quase vinte anos. Sem água nem luz, esta mulher diz que “aqui não há higiene, as crianças sofrem muito e nem podem tomar banho para ir à escola”. Lurdes Trindade refere que “já fomos falar com o Presidente da Câmara de Campo Maior, mas ele nem aparece por aqui, ele esconde-se de nós”.
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À medida que entramos neste território “selvagem” tomamos consciência do que é viver sem o mínimo de condições. Não existe saneamento básico, abastecimento de água da rede pública, nem instalações sanitárias e ali vivem crianças, idosas e até algumas pessoas acamadas. As crianças, algumas dezenas, perseguem a nossa equipa de reportagem e pedem para ser fotografadas. Com um sorriso, mostram-nos onde tomam banho, onde brincam e até onde fazem as suas necessidades, ao ar livre. |
Maria Mendonça não sabe ao certo a sua idade, mas diz ter mais de 80 anos. Vive sozinha e é uma pessoa doente. “Moro aqui há oito anos e nunca veio cá ninguém interessado em ajudar-nos. O Presidente da Câmara também não quer saber”. Sem água nem luz, Maria Mendonça espera por dias melhores.
O mesmo acontece com os habitantes de Campo Maior, principalmente, aqueles que habitam perto daquela zona degradada. Algumas pessoas queixam-se de pequenos furtos, rixas, destruição de património e até tiroteios. |
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Denunciar e estar atento

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Com o objectivo de dar visibilidade a este problema que se arrasta há décadas, a Coordenadora Distrital de Portalegre do Bloco de Esquerda (BE) promoveu um encontro com a comunicação social. Luís Pedras, Joaquim Garcia Gordo, António Manuel Barroso e Rosa Garcia Gordo acompanharam os jornalistas numa visita ao local e conversaram com os residentes daquela comunidade.
Luís Pedras, dirigente da Coordenadora Distrital do BE refere que “não nos compete solucionar o problema, mas fomos eleitos e, como tal, temos responsabilidades políticas. |
É por isso que estamos aqui, para dar a cara; não podemos arranjar soluções mas podemos denunciar e estar atentos a estes problemas”.
O BE já fez chegar a sua preocupação junto do Presidente da Câmara Municipal de Campo Maior, do Governador Civil de Portalegre e da Segurança Social do distrito. Luís Pedras adianta que “já tivemos uma reunião com o presidente da Câmara de Campo Maior e que em nada nos adiantou. O que sentimos após esse encontro é que não existe vontade política e, acima de tudo, coragem para encarar e enfrentar este problema”.
Um problema que o dirigente partidário define como “uma realidade nua e crua, que em nada dignifica a vila de Campo Maior, pois estas pessoas vivem em condições degradantes, de insalubridade e de pouca dignidade humana”.
O BE reuniu também com o Governador Civil de Portalegre e sublinha que a situação foi idêntica “ou não fossem ambos do mesmo partido. O facto é que nenhum deles consegue enfrentar este problema, dar visibilidade e acima de tudo arranjar soluções habitacionais para estas famílias que aqui vivem”, acrescenta Luís Pedras.
A degradação do património
Segundo o Bloco de Esquerda, a situação necessita da intervenção de outras instituições, onde se inclui também o IPPAR, Instituto Português do Património Arquitectónico.
Mandado edificar por D. Dinis, em 1310, o Castelo de Campo Maior foi profundamente alterado em meados do século XVII, aquando das guerras da Independência. Em 1732, uma violenta trovoada causou a ruína de uma das torres que servia de paiol. A explosão que então deflagrou e o incêndio que se seguiu afectaram grande parte da vila, consumindo mesmo mais de metade das habitações em redor do castelo. Mais tarde, D. João V ordenou a sua reconstrução. No século XX o castelo foi classificado como Monumento Nacional e na primeira metade da década de 1940 a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais iniciou obras de consolidação e restauro do conjunto. Uma segunda etapa de obras foi iniciada na segunda metade da década de 1960, estendendo-se até ao início da década de 1970, marcada por intervenções nas muralhas do castelo e na Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, conhecida também como Igreja de São Sebastião – o Mártir Santo. O castelo passa para a afectação do IPPAR em 1996.
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Luís Pedras diz que as muralhas do castelo não deviam ser habitadas e que o monumento deveria ter a dignidade que merece “até porque a imagem que se dá aos turistas não é a melhor”.
Referindo-se a esta situação como “um jogo de interesses”, o dirigente da Coordenadora Distrital acha estranho que as diversas forças políticas do Concelho nunca tenham tido coragem para enfrentar o problema, à semelhança dos vários elencos camarários, eleitos em Campo Maior. Por esse motivo, o Bloco de Esquerda preparou um requerimento parlamentar que dará entrada na Assembleia da República, pedindo explicações sobre esta situação. Para o BE é necessário “criar projectos e meios financeiros de forma a encontrar habitações condignas a estas pessoas, que paguem as respectivas rendas sociais, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, em Elvas, Nisa ou Castelo Branco”.
Sem deixar de lado a possibilidade de endereçar também um convite ao Presidente da República para visitar Campo Maior e conhecer in loco este problema, a Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda relembra que “segundo a Constituição Portuguesa todo o cidadão tem direito a uma habitação condigna”.
Na verdade, o Artigo 65º da Constituição da República Portuguesa, diz que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”.
Já agora, vale a pena pensar nisto...
Susana Chambel
scpchambel@sapo.pt
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| Comentários |
| Nome: lp Localidade: Elvas Email: |
Mensagem: Brilhante, o trabalho que realizaram é necessário de facto muita coragem para denunciar, neste caso informar as pessoas da triste realidade que ainda encontramos em pleno sec. XXI, este é o Alentejo "olvidado" que
os portugueses não conhecem, quero desde já felicitar a investigação em termos históricos que fizeram para enriquecer este artigo, oxalá não fique insensivel áqueles que decidem em nome de todos, bem hajam e obrigado!! 04.04.08 |
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| Nome: Rafael Angrola Localidade: Beja Email: rangrola@sapo.pt |
| Mensagem: Ó meus amigos não é só no Alto Alentejo. Os ciganos possuem uma cultura própria e se arranjassem casas para esses, viriam logo outras dezenas para o mesmo local. Aqui em Beja já aconteceu. São minorias mas com mais esperteza que um rato. Não vão em cantigas, porque este este fado é de choradinho, sempre! Rafael Angrola. 05.04.08 |
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| Nome: Paulo Cardoso Localidade: Portalegre Email: paulojrcardoso@net.sapo.pt |
| Mensagem: Mais uma vez os meus parabéns pelo excelente trabalho 05.04.08 |
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| Nome: garcia Localidade: campo-maior Email: jgarciag@sapo.pt |
Mensagem: os senhores que mandam em campo-maior são eles os grandes responsaveis desta triste situação, nem o pcp. nem os socialistas tiveram coragem de enfrentar este problema, é muito triste para a sociedade, e dizem esses senhores que trabalham para o povo, só o BE. teve essa coragem de enfrentar a realidade do problema. como portugal pode ir para a frente
com pessoas assim. 05.04.08 |
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| Nome: anabela Localidade: elvas |
| Mensagem: E nos que pagamos os nossos impostos quem nos da casa??????? 05.04.08 |
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| Nome: garcia Localidade: campo-maior |
| Mensagem: aquela senhora que se chama ANABELA, o problema aqui nao é de dar casas,é arranjar um terreno para esta comunidade, e se for possivel arranjar umas casas de pré fabricado aonde todos devem pagar uma renda, para que as muralhas sejam todas arranjadas, para o turismo vir há nossa terra, porque isto aqui é um atentado há saúde pública, venha ver para crer. 05.04.08 |
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| Nome: J. Santana Localidade: Campo Maior |
| Mensagem: Esta situação já devia estar resolvida há muito tempo. É um postal muito negro para Campo Maior e dá muito má imagem para a terra. O município e a seg. social já deviam ter arranjado uma solução para estas pessoas e requalificar aquele local, que como está mais parece estarmos no terceiro mundo. Dou os parabéns à jornalista que fez este trabalho, denunciando uma situação que, como alentejana e campomaiorense, muito me entristece. 07.04.08 |
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| Nome: Leonor Santos Localidade: Évora |
Mensagem: Esta situação não tem só a ver com um problema social. É mais que isso, tem a ver com a falta de respeito para com os nossos antepassados. Para com todos aqueles que sofreram e lutaram para que hoje sejamos um povo livre e independente. Para com todos aqueles que derramaram suor a construir essas muralhas e igrejas que hoje nos envergonham num estado em que estão. Os responsáveis deveriam ser julgados por permitirem este atentado ao nosso maravilhoso Património. Será que ninguém põe mão nisto? 08.04.08
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| Nome: garcia Localidade: campo-maior |
Mensagem: olá esta senhora j. santana de campo-maior deu os parabens há
jornalista e muito bem, mas esquece-se que foi da iniciativa do BE. que se
fez este trabalho, que deu a cara, já não acontece com os outros partidos. 08.04.08 |
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| Nome: J. Santana Localidade: Campo Maior |
Mensagem: Caro Garcia
Naturalmente que não retiro o mérito ao BE por ter trazido esta situação novamente à ordem do dia, que aliás é conhecida desde há muito. Esse mérito já está implicíto na reportagem e qualquer leitor o reconhecerá. A partir daí, e entrando na linha do seu comentário, já estaremos a penetrar no aproveitamento politico de uma situação degradante e na politização da questão. O que por certo não estará no horizonte do BE, que certamente mais não quis do que levantar e dar mais visibilidade a este problema, que é grave, que se arrasta e que precisa de uma solução urgente.
E, como diz e bem a D. Leonor Santos, este problema não é apenas do foro social mas também interfere com o nosso legado histórico. Nessa medida, é também muito estranho que o IGESPAR (antigo IPPAR) não tenha ainda intervido nesta questão, uma vez que estamos perante património
classificado. É por demais evidente que é necessário tomar medidas urgentes que o defendam e protejam antes que se degrade mais do que já está, e se coloque esse património ao dispor dos campomaiorenses e do turismo cultural.09.04.08 |
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| Nome: Luis Pedras Localidade: Elvas Email: lewistones@hotmail.com |
| Mensagem: caro amigo Santana, efectivamente a mensagem que o BE quiz passar está de forma bem explicita no artigo que este "Portal Alentejano" efectuou e muito bem, a lingua portuguesa é muito versátil e complexa, pelo que estou perfeitamente de acordo com a reflexão e interpretação que fez. saudações e bem haja 10.04.08 |
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| Nome: Cândida Localidade: Elvas |
| Mensagem: É vergonhoso em pleno séc. 21 ainda se verem casos destes em Portugal e no nosso alentejo. Conheço este caso porque tenho familia em Campo Maior e vou lá muitas vezes e não se percebe porque é que a câmara conjuntamente com o estado não resolve isto de uma vez por todas porque se há dinheiro para certas coisas também tem de haver para uma coisa destas que é uma autêntica vergonha em Campo Maior. E digo mais, quem devia revoltar-se e exigir que aquilo fosse resolvido devia ser o povo todo de Campo Maior porque aquilo prejudica muito a imagem da terra e do povo.10.04.08 |
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| Nome: anabela Localidade: elvas |
| Mensagem: Sr Garcia,tudo bem que queram as muralhas arranjadas,nao discuto isso,o problema é que fazem isso para terem casas novas.quem paga essas casas somos nos!!!!! pagarem renda como?se nao querem trabalhar,querem viver dos nossos impostos.Nos nao somos racistas,eles é que nao querem fazer parte da nossa sociedade. 13.04.08 |
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| Nome: siripipi-alentejano Localidade: campo maior |
Mensagem: Se há situações na vida das pessoas, o problema da comunidade cigana e dos desfavoritos, segundo a nossa Constituição é um problema do Governo e este a nível local tem sua extensão nas Autárquias. Todos os cidadãos têm direito a serem tratados da mesma maneira, isto é o chamado o Princípio da Igualdade e aqueles seres, tal como nós, devem exigir esse
direito.
Comungo totalmente com o trabalho desenvolvido pelo B.E. e a prova disso é que ao ter conhecimento da sua conferência de impressa, dirigi uma carta ao seu Secretário Geral enviando-lhes documentos e um DVD feito pelo Movimento Civico de Campo Maior sobre aquela matéria, além de cópias das minhas intervenções, como deputado municipal, relativamente à comunidade
cigana e à ocupação daquele património monumental da nossa História.
A culpa é da Câmara Municipal e o do I.P.P.A.R. como organismo de tutela, à Autarquia cabe-lhe alertar o Governo e reivindicar a resolução do problema, para que acabe mais um foco de exclusão social.
Há falta de vontade política do Presidente da Câmara para a resolução deste problema, contudo, é bom lembrar que por esse motivo a zona do Mártir Santo tornou-se numa zona insegura para quem ali passa e para quem ali reside.
É imperioso, que depois de se resolver a situação da comunidade cigana (lembramos que em 1995 naquele local não residia nenhuma família cigana)o espaço seja recuperado e posto ao serviço dos Campomaiorenses e daqueles que nos visitam.
Campo Maior, 29 de Junho de 2008
siripipi-alentejano |
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