02.02.2008
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| Maneta Alhinho |
Ficou dito e celebrizado que a língua portuguesa era muito traiçoeira.
O efeito pretendia-se humorístico, e era, mas acabou por se estender a domínios que não têm graça alguma.
Uma dessas traições da língua que tem servido de comentário nas últimas semanas é a da utilização da palavra “cromo” como insulto, passível de condenação num tribunal.
Lembro-me perfeitamente em miúdo, em Vila Boim - Elvas, que os “cromos” eram, por excelência e definição, os “bonecos da bola”.
Sem grandes detalhes, até porque os jogadores de futebol desse tempo não eram sujeitos de marketing, nem modelos de mil produtos de consumo, logo, não eram ricos, não eram vistos como “giros” ou especialmente interessantes e, por consequência, não faziam parte do universo de referências das raparigas.
Mas os tais “bonecos da bola”, em fotografias mal prontas e muito coloridas, prefiguravam em todo o lado, como sendo o universo dos heróis populares que nós miúdos aprendíamos a gostar e a conhecer.
Também as raparigas tinham os seus cromos, que mesmo não sendo da bola, mostravam imagens que eram supostas ser coleccionadas, manipuladas como bens, trocadas entre elas e coladas depois em cadernetas vistosas.
Porque foi assim, foi possível que sucessivas gerações tenham, em algum momento, espreitado as anteriores através das colecções de cromos que sobreviveram como relíquias do tempo de infância.
Os tais cromos eram pois, e resumindo, imagens estereotipadas e identificadoras de toda a gama de personagens, reais ou fantasiadas, que faziam parte do dote de estórias dos miúdos que não tinham 10 versões do super-homem, 30 fotografias do Figo, 20 imagens da Madonna. Nesse tempo em que a imagem não escorria como água e as fotografias paravam o tempo e davam vida aos desconhecidos famosos, mesmo que inventados, a grande aventura era a das colecções de cromos.
Por extensão, nas gerações seguintes passou-se a usar o termo para referenciar pessoas que, por muitas e diversas razões, prefiguram na perfeição o nosso imaginário de um qualquer estereótipo.
São cromos as tias de madeixas louras que dizem pecebes e os tios de calças cinzentas, blêizer azul e camisa às riscas.
São cromos os putos das tribos urbanas que interpretam as diversas tendências de moda que vão e vêm, quer se vistam de preto e se sintam muito góticos, quer tenham oculinhos de aro, um pulôver sem mangas para agasalhar e o respectivo ar marrão. São cromos os políticos que dizem sempre as mesmas coisas com o mesmo ar convicto e definitivo de quem sabe o que salva a pátria. São cromos as personagens que aparecem nas revistas sociais a dizer banalidades sobre coisa nenhuma em poses fantásticas.
De uma forma ou de outra, ou mais coisa menos coisa, todos nós, que de vez em quando desempenhamos um qualquer “boneco”, damos alma aos cromos e pomo-los a circular na rua.
Porque é que isto há-de ser um insulto, não tenho nem ideia, mas há outros cromos que acham que sim.
Maneta Alhinho
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