02.09.2007
|
| Maneta Alhinho |
São cada vez mais frequentes as situações em que me vejo a pensar duas vezes antes de falar ou de agir, por circunstâncias diversas que acabam por me fazer perder a espontaneidade. E se muitas vezes esta espontaneidade pode levar a tomar atitudes precipitadas ou a dizer o que seria melhor calar (como acabo por compreender, às vezes tarde demais), muitas outras, a falta dela acaba por fazer adiar, quantas vezes “sine die” ou “ad perpetuam”, actos ou ditos que ficarão, assim, sem data marcada ou adiados para sempre.
Em qualquer dos casos pode haver prejuízos e contrariedades e não se pode sequer seguir receitas para nunca falhar, porque elas não existem. Funcionará o instinto, a intuição, o bom senso, a sensibilidade, a razão, o temperamento, a presença de espírito...sei lá! A dificuldade estará em fazer intervir, de acordo com as circunstâncias, cada ingrediente, na hora certa e na quantidade q.b.(quanto baste).
No que me diz respeito, ainda que houvesse receitas, o resultado não estaria garantido porque, como é meu costume, havia de introduzir em cada uma o meu cunho pessoal, com risco de estragar tudo ou de falsear o produto final.
Por outro lado, factores como o estado de espírito, a disponibilidade interior, a frescura ou cansaço intelectual, sem esquecer o contexto social, não serão despiciendos (as palavras que me vêm à cabeça!). Ninguém duvida que, perante uma solicitação com contornos idênticos, não reagimos da mesma maneira se estivermos bem ou mal humorados. Se há momentos em que nos apetece reagir efusivamente a saudações, ripostar a intervenções, outros há em que estamos mais propensos a ouvir (e saber ouvir também é uma qualidade fundamental), ou às vezes nem sequer a isso, porque só desejamos silêncio. E nem sempre haverá uma justificação plausível...Também, se no comportamento humano tudo fosse previsível e programável, não seríamos pessoas, seríamos “robots”...
Voltando à questão do pensar ou não pensar, do que não há dúvida é que, se não pensar antes de agir pode conduzir a situações elas próprias conducentes à opressão, à angústia, ao arrependimento, pensar demais pode dar em hesitação excessiva e daí à perda completa da oportunidade de actuar, quando não mesmo à total inacção, irá um passo. Será por pensarem demais que tantos hesitam tanto em assumir compromissos sérios? Não seria preferível pensar um pouco menos?
Não haverá receitas – já se disse – mas quer-me parecer que se cada um se reger por um conjunto de valores que o levam a respeitar-se a si próprio e aos outros, se usar de bom senso, auto-estima e autocrítica nas doses adequadas, bastará que seja simplesmente igual a si próprio e, sejam quais forem as circunstâncias em que tenha de agir, acabará por combinar bem os ingredientes, ou pelo menos de forma satisfatória.
Também não será fácil assumir responsabilidades e compromissos (se fosse fácil teria menos valor), mas se não se assumem, corre-se o risco de ver simplesmente passar a vida sem a viver verdadeiramente, porque não se saboreiam os sabores mais autênticos, aqueles que lhe dariam um sentido pleno, em grande parte porque se temem os dissabores.
Será que, sem dissabores, daríamos o justo valor aos sabores? Não sei se é caso para pensar duas vezes...
Maneta Alhinho
|