14.08.2007
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| Maneta Alhinho |
Um sentimento que nos visita de quando em vez, nublando o dia, relativizando os pequenos prazeres que retiramos dos gestos quotidianos, é a tristeza.
A tristeza, que parece uma palavra perdida e um sentimento sem estatuto, teve outrora a dignidade indesejável, mas assertiva, de ser pecado.
Depois, desapareceu das classificações que podiam resultar ofensivas à transcendência e, através dos séculos, foi escorregando para o terreno pantanoso das doenças, o que quer dizer que passou a ser só indesejável pelas sociedades.
De estar triste diz-se hoje estar deprimido, como se houvesse sinonímia, como se se tivesse de catalogar este tipo de sofrimento na zona das experiências erradas, perniciosas, a curar com comprimidos, a evitar a todo o custo.
Porque vivemos num tempo que não tem tempo a perder, tentamos evitar até a resposta a uma qualquer perda, real ou imaginária, factual ou antecipada. Tentamos evitar, negar, disfarçar, qualquer sentimento que roce os terrenos da tristeza, que iniba desempenhos e competências. Tentamos matá-la à nascença, enquistá-la num qualquer canto recôndito em que não se veja, não se faça sentir nem chateie. Às vezes ficamos tristes. Porque sentimos ausências que nos doem. Porque falhámos objectivos a que nos propusemos.
Porque nos sentimos sozinhos no meio de muita gente que nos ama. Porque não conseguimos dar sentido ao que nos rodeia. Porque falhamos a comunicação ou a intimidade. Porque temos medo e não percebemos de quê.
Às vezes ficamos tristes.
Porque a vida não é como a gente quer. Porque os que amamos não valorizam o mesmo que nós.
Porque nos falta qualquer coisa indizível. Porque perdemos o olhar doce de outros tempos, os sentidos plenos que já conhecemos, as expectativas cheias de fé e próximas do absoluto.
Às vezes ficamos tristes porque os sentido das coisas esmoreceram e nós com eles.
Às vezes ficamos tristes porque sim, e deixamo-nos envolver pelo clima de desistência, apatia e desinteresse que o sentimento comporta.
A tristeza que às vezes nos visita antecipa em nós lutos muito mais complicados.
É porque a conhecemos, porque nos habituamos a deixá-la fluir ou a sacudi-la, que acedemos à compreensão que a dor não é o fim.
Contrariamente ao modelo dominante do sentir, que nos faz correr atrás de sensações euforizantes e despreza embalos próprios de penas invisíveis, é o tu cá tu lá com as nossas tão reais quanto subjectivas tristezas que treina em nós resistências e recursos, e, nessa medida, evita algumas formas de depressão que, seguramente não sendo por acaso, parecem ser a praga oficial do nosso mundo.
Maneta Alhinho
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