A bem dizer ou dizer bem

14.07.2007

Maneta Alhinho

Não sei se às vezes têm ganas de dizer bem.

Dizer bem das pessoas que conhecem e que são normalmente simpáticas ou generosas num momento inesperado; das pessoas que foram capazes de um sorriso num dia cinzento ou que se cruzaram na rua ou no elevador e simplesmente vos viram e vos olharam como se não fossem transparentes ou indiferentes.

Dizer bem e até louvar as pessoas que não conhecem, mas porque existem, porque escrevem, porque pintam, porque investigam, ou porque simplesmente fazem o seu trabalho bem feito, com rigor e serenidade, fazem uma qualquer diferença sensível no nosso modo de vida. Às vezes, mostram-nos um ponto de vista que sozinhos demoraríamos eternidades a alcançar; outras, ecoam um sentimento ou uma impressão que não conseguiríamos exprimir e que, porque alguém o fez, nos mergulha numa sensação de acompanhamento e partilha, de entendimento e comunhão com um todo inexprimível mas com sentido. Muitas vezes, as pessoas que estão por detrás do nosso conforto, do nosso bem-estar, da nossa esperança não têm rosto. Ocultam-se atrás de nomes de empresas ou instituições, escondem-se sob o manto diáfano e impessoal de cargos e títulos que, sem uma certa qualidade de desempenho e investimento, seriam híbridos iguais a tantos outros que não nos despertam nem consideração, nem respeito, nem gratidão.

Às vezes, um quase-nada mergulha-nos num quase desespero, mas seria óptimo que experimentássemos mais vezes o desejo de fruir com simplicidade e alegria os pequenos prazeres que nos são acessíveis: os amigos que vão estando connosco, os amores que nos valorizam e enriquecem a nossa existência, as refeições que nos fazem perceber que a alimentação pode fazer parte de um exercício estético, as viagens ou passeios que nos dão acesso a um outro plano em que tudo pára, encolhe, estica e se submete ao poder da sensorialidade individual.

Ás vezes, nem que seja para contrariar a monotemática tristonha, decadente, enferrujada que nos cerca e que ostenta o que é feio, mau, mesquinho e infeliz, como se fizéssemos todos parte de um clube de desiludidos da vida sem o charme do romântico, apetece dizer como é linda esta terra pequenina e como quase todos nós encontramos dias felizes e momentos eternos porque assim o queremos, porque assim o fazemos.

Às vezes é mais importante olhar para as garrafas meias como se estivessem meio cheias. Não porque sejamos tontos ou indiferentes ao mundo que muda e nos inquieta nas suas convulsões, mas porque, no fim de todos os caminhos, para cada um de nós existe a nossa própria capacidade de apaziguamento e construção.

Que se treina também e, por exemplo, em exercícios de bem dizer.

 

Maneta Alhinho

 

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  Comentários
Nome: Alberto Pestana Localidade: Vila Boim/Rádio Madeira Email: beto@rm.pt
 
Mensagem: A esta crónica eu chamo uma obra prima da literatura portuguesa contemporânea, digna de qualquer compêndio. Um Alentejano a escrever assim, meu Deus. Tenho orgulho em ter estudado com este senhor da escrita.
Sempre revelou ser capaz de atingir este patamar, para além de ser um
jovem educado e respeitador. Já não nem se "fabrica" gente deste quilate.
Estou orgulhoso por ele, pelo site e pelo meu povo alentejano que há anos
que não o visito. Agradeço à Ronalda (cantora) ter-me dado a conhecer este site. Estão a fazer um trabalho maravilhoso. Parabéns a todos. Alberto Pestana. 15.07.07
   
Nome:João Carlos Oliveira Localidade: Almada Email: j.oliveira@hotmail.com
 
Mensagem: Este homem é um primor a escrever. Conheço-lhe duas faces
escrita, esta a mais séria, onde coloca todo o seu potencial como
escritor, mas com muita sociologia e a outra face, a do jornalismo em que
a linguagem é mais simples e mais acessivel. Nas duas me enquadro bem como leitor, mas noto e desculpem, tive enormes dificuldades em perceber este texto. Embora com duas leituras a mensagem já estava na minha cabeça. É o seu estilo e só temos que respeitar. Não conhecia o Portal e prendeu-me de tal forma que já estou a navegar nele há quase uma hora. Do que já li e vi o Alentejo só se pode orgulhar. Parabéns a todos e está tudoben. 27.07.07
   
Nome: Fernando S. Reis Localidade: Fernão Ferro Email: fernandosoaresreis@gmail.com
 
Mensagem: A bem dizer, desta crónica só posso dizer bem. O que é dizer
pouco.Muito mais poderia dizer mas sou suspeito por  ter o privilégio de
ser amigo do seu autor que  nasceu para a arte de bem escrever, com
elegância, sem escárnio ou mal-dizer. As suas qualidades humanistas, a sua sensibilidade, a sua generosidade, o seu rigôr e seriedade fazem dele não só um jornalista ímpar mas também o  excelente escritor que é.
Parabéns a este Portal Alentejano por ter um colunista como o Maneta
Alhinho.
Um abraço e Tudo Ben. 02.08.07
   
Nome: Inês Carapinha Localidade: Lisboa Email: i.carapinha@gmail.com
  Mensagem: É um Vilaboinense que escreve desta maneira que me orgulha de ser alentejana. Não temos só chaparros, temos cultura e tradição, somos um povo diferente até nos sentimentos. Já não existe povo como este, que sofreu, lutou e tem nos seus filhos, homens que escrevem desta maneira.
Sinto-me orgulhosa por si e pelo Portal. Data:  02.08.07
   
Nome:Olga Maria Carvalho Roque Localidade: Bencatel/Lisboa Email: olga_roque@hotmail.com
 
Mensagem: Fascinou-me este trabalho literário e pergunto-me a mim mesma se de uma frase a bem dizer, sai uma crónica com esta profundidade. Estou de acordo com os comentários anteriores e reconheço que este estilo não está ao alcance de muitos prosadores deste País. É um orgulho para o Alentejo ter uma pessoa a escrever desta forma. Tenho tido e tudoben. Olga Roque 07.08.07
   
   
 
 
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