Contacto

20.06.2007

Maneta Alhinho

Mesmo não indo muito longe, o tempo em que os Correios eram uma digníssima e imprescindível instituição parece-nos a muitos uma coisa longínqua, pelos menos enquanto forma de comunicação.

Hoje em dia, falamos uns com os outros através de mail, mandamos recados e saudades, graças e anedotas, lembretes e ofícios.

O mais vulgar cidadão chega ao escritório ou a casa e liga o computador para ver se tem correio. Há quem trabalhe atento às mensagens que vão chegando. Há quem, ao viajar, não consiga deixar passar pelo cybercafé ou pela sala de computadores do hotel para saber se tem alguma notícia relevante. Há quem desespere porque a resposta por que espera demora mais do que um ou dois dias, há quem fique em lágrimas porque numa semana inteira ninguém conhecido o contactou.

Paralelo ao desenvolvimento do correio electrónico há o telemóvel, que, mais coisa menos coisa, vai-nos permitindo a fantasia de estarmos sempre contactáveis, de termos assunto tão prementes, urgentes ou inadiáveis a resolver ou a debater que estar em Badajoz, em Sesimbra ou em Vila Boim (Elvas) é uma questão de somenos. Adolescentes e criancinhas, senhores sisudos e donas de casa da velha guarda, avós e netos, namorados e amigos, estão sempre a falar uns com os outros até não ter assunto, até parecer que está a acontecer muita coisa onde nada acontece.

Este desejo de contacto, habilmente explorado por quem tem de fazer da comunicação um negócio, tem, além de óbvios méritos, deméritos assinaláveis.

Ultrapassemos os mails que entopem os servidores; as contas de telemóvel no final de cada mês; os concursos entre colegas e amigos transformando utensílios de comunicação em sinais de popularidade e importância; as disputas conjugais e parentais sobre os nomes que estão na agenda; os telefonemas feitos; o teor das mensagens guardadas.

Ignoremos os telemóveis em cima da mesa, a tocarem em funerais e em conferências; a escrita afadigada de mensagens no meio da missa ou de um espectáculo musical; os guinchos altíssimos de quem, mesmo tecnologizado continua a achar que falar ao telefone é um acto público e à distância. Ainda assim fica-nos a arte de lidar com a ideia de que qualquer comunicação implica que emissor e receptor, além de estarem conectados, queiram, de facto, comunicar. Melhor dizendo, não basta que eu queira falar com alguém, é preciso, é fundamental, que o outro também o deseje. E o outro pode sempre desligar as máquinas e entreter-se com coisas mais importantes. É neste pequeno detalhe, neste ínfimo pormenor esquecido, que reside não só o sagrado direito à privacidade como o gozo extenso e puríssimo de ir de férias e não estar contactável.

Experimentem...vão ver que gostam.

 

Maneta Alhinho

 

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  Comentários
Nome: José Catalão Localidade: Lisboa
  Mensagem: É bom ter de regresso este conterrâneo do jornalismo e da
escrita. Quanto ao texto é um primor, com temas do nosso dia a dia,
descrito de forma sarcástica e soberba. Sou seu fã e um escritor que já
não dispenso. Obrigado pelo seu trabalho e só espero que a sua ausência
não fosse por motivos de saúde. 20.06.07
   
Nome: Benedito Pereira dos Santos Localidade: Arronches Email: b.pereira@sapo.pt
  Mensagem: Estou de acordo com a análise sobre esta nova forma de comunicar tantas vezes aborrecida, mas que podemos fazer perante a avançada tecnologia dos nossos dias e a propaganda que entope os intervalos das nossos canais televisisvos. O melhor como refere o autor, quando nos apetecer dislagarmo-nos deste aparelhos e gozar a vida sem a pressão da comunicação. 22.06.07
   
Nome: Serginho Localidade: Lisboa
  Mensagem: Continuas a fazer um trabalho muito sério neste portal, com
objectividade e clareza de ideias. Abres horizontes onde o cidadão comum
não chega. Adorei os temas para o novo CD da Ana Malhoa. Por ser um
multifacetado da escrita fazem de ti um escritor, jornalista e poeta
impar.
24.06.07
   
Nome: Maria Graça Petronilho Localidade: Vendas Novas
 

Mensagem: O autor na primeira frase, concerteza quis dizer, "Hoje em dia" e não "Hoje é dia". Um erro que acontece. Desculpem a intromissão. Adorei o vosso site e gostei imenso dos trabalhos deste senhor, que passo a ler atentamente, dada a riqueza literária que coloca nos seus textos. O site está bem elaborado no seu todo e para além da informação dá para passar uns momentos agradavéis com as fotos. O Alentejo é lindo.25.06.07

 
  Resposta: Agradecemos a observação, já foi efectuada a correcção.
   
Nome: Manolo Localidade: Cascais
  Mensagem: Tu sabes que eu adoro a tua escrita, mas cada vez me surpreendes mais. Neste caso se desliga-se o meu contacto telefónico não teria espectáculos, embora esteja de acordo com a tua mensagem. Um abraço amigo. 25.06.07
   
Nome: João Cunha Rego Localidade: Lisboa
  Mensagem: Este trabalho segue a linha a que o seu autor já nos habituou.
Continuo a defeni-lo como um escritor de elevado gabarito literário. Não
dispenso a leitura dos seus escritos que me fazem abrir horizontes novos
na forma de encarar a vida. Parabéns ao Tudoben e ao Cronista.27.06.07
   
Nome: Adrina Santos Localidade: Lisboa
  Mensagem: Em primeiro lugar quero dar-lhe os parabéns pelos magnificos
trabalhos que tem elaborado para este site. Por outro, fazer temas para
Ronaldas e Anas Malhoas, entre outros, não lhe dão prestigio nenhum. As
suas capacidades vão mais além do que simples poemas para pimbalheiras.
Não se deixe ir em cantigas. A sua cultura devia falar mais alto
01/07/07
   
Nome: Carlos Ventura Martins Localidade: Lisboa Email: cvmartins@hotmail.com
  Mensagem: Esta análise posso considerá-la de perfeita. Um texto bem
estruturado dos nossos dias, tratado com elevado rigor literário. Dá gosto
e prazer fazer leituras destas. Haja alguém que escreva e pugne pela nossa literatura. Parabéns ao site.
  10/6/07
   
Nome: Cândida Luisa Morgado Localidade: Barreiro
  Mensagem: Antes de mais quero expressar o meu apreço pelo seu valoroso trabalho. Em relação ao "contacto", vou tentar a partir do meio do mês, desligar o meu telemóvel. Será que mesmo de férias gostarei de estar sem contacto? É um desafio que me cria, mas honestamente não estou a ver. A tentação é muita e hoje em dia com estas novas tecnologias, somos delas dependentes. Parabéns pelo seu trabalho e ao site que defino como dos melhores que conheço em qualidade. Cândida Morgado 4/7/07
   
Nome: Carlos Móia Localidade: sic/Lisboa
 
Mensagem: A minha mulher é uma dependente destas novas paneleirices. Caro amigo e colega Alhinho este artigo está bem apanhado e só a tua inspiração vale tudo. Conheci o teu Alentejo e não vejo chegar as minhas férias para conhecer estes locais maravilhosos. Quando ao site, está uma maravilha que todos os alentejanos se devem orgulhar. Adorei este tempo de visita, apesar de estar a trabalhar. Vou ser um visitante assiduo. Com a fome que tenho a esta hora, ver tantas propostas gastronómicas deixaram-me com àgua na boca. Parabéns ao painel de comentadores. 13/7/07
   
Nome: CARLOS TEIXEIRA Localidade: QUINTA DO CONDE Email: carlosjteixeira@msn.com
  Mensagem: OBRIGADO PELO CONVITE PARA CONHECER ESTE SITE, O QUAL NÃO CONHECIA, E DESDE JÁ  OS MEUS PARABENS PELO PRIMOROSO E TÃO ACTUAL TEMA DO MESMO 13/7/07
   
   
 
 
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