25.03.2007
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| Maneta Alhinho |
Vivemos num tempo em que além daquela coisa desagradável da globalização, existe outra, ainda pior, da hiperespecialização.
Nos casos concretos em que estou a pensar, a globalização que nos permite alguns cómodos nos registos específicos das comunicações, da informação, da tecnologia e da mobilidade, acarreta também a uniformização empobrecedora de formas e conteúdos; a dominância de um conjunto de procedimentos protocolados que, sendo completamente arbitrários e, tantas vezes, pouco amigáveis, quando não mesmo tontos, nos obrigam a ir atrás; o imperialismo absoluto de uma língua sobre todas as outras.
Especificando, para que não restem dúvidas, é mais do que uma maçada, é mesmo uma dor de alma, ter que fazer o quer que seja, importante ou trivial, submetido à tirania de um programa de computador que não aceita o que há, obrigando-nos a descobrir uma forma de enganá-lo, ou torcendo a realidade até a transformar.
É patético, em cada um dos nossos países, com línguas tão vivas e tão ricas, termos de as secundarizar, permanentemente, em favor de uma única, que nem sequer é a que tem mais falantes, e fazer de conta que só existe o que está em inglês, entrando no jogo e esquecendo-nos que por mais que espertinhos, jeitosos e habilidosos que sejamos para falar e escrever noutras línguas, nascemos da barriga das nossas mães e não de outras respeitáveis senhoras, pelo que, temos mesmo uma língua-mãe e, por muitas piruetas que façamos, não conseguimos fluências comparáveis nem competições justas.
O facto é que somos presos por ter cão e também o somos por não ter.
Se aceitamos entrar num jogo forjado noutra cultura e expresso noutra língua, ficamos deslocados do nosso próprio meio que se desenvolve ao seu próprio ritmo e não necessariamente na lógica imitativa que as multinacionais e os governantes modernaços acham que devemos ter. Se insistimos em perseverar as nossas especificidades culturais, éticas e estéticas, com todos os seus defeitos e virtudes, somos cilindrados, pela correria em direcção à globalização, aos choques tecnológicos e anglo-saxonização que imperialmente diz e faz de sua justiça.
Como apesar de tudo parece que a sorte de um homem é escapar, vamos levando os dias com a ansiedade e preocupação de quem tudo o quer é escapar.
Claro que há coisas piores. Se isso servir de consolo.
Maneta Alhinho
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