Foto:Lídia Carujo
A amizade

09.03.2007

Maneta Alhinho

Mesmo que os amigos sejam para as ocasiões, fica cada vez mais difícil definir quais são as situações em que se deve e pode apelar aos amigos e quais os amigos que se prestam e têm disponibilidade para acudir nessas dadas ocasiões.

Parecendo do mais trivial, a amizade é um tema dos mais discutíveis e uma das relações mais escorregadias, ainda que presente, das nossas vidas.

Começamos, em miúdos, por ter um ou dois grandes amigos a quem contamos tudo, com quem partilhamos segredos e marotices, cumplicidades e fantasias. São assim como uma espécie de irmãos escolhidos e adoptados, que conseguimos arrastar para as nossas famílias e para as nossas vidas numa legitimidade que só se concede à infância.

Na adolescência, os amigos transformam-se no grupo de amigos, uma entidade plural que nos dá uma nova identidade, um novo sentimento de pertença, que é em si mesmo uma nova família e com quem nos sentimos importantes, protegidos, poderosos.

Com o nosso grupo de amigos tecemos futuros prováveis e improváveis, pintamos a manta, estabelecemos novos patamares de intimidade, dizemos coisas que não devem ser ditas e fazemos outras que, de tão absurdas, nos cobrem a todos com um manto de secretismo e partilha que, mesmo que sem rituais nem palavras mágicas, nos torna em pequenas seitas de escola ou bairro (do Castelo, do Gatão ou do Rossio).

Um pouco mais tarde, já adultos, ainda que jovens, fazemos amigos por zonas de interesse e ocupação. Começamos a deslizar para relações com o seu quê de racionalidade e oportunidade. Estudamos e saímos, conversamos e inventamos programas com pessoas de outrora ou recém-chegados que aderiram ou se encaminharam para o mesmo estilo de vida que nós.

Precisamos, nessa fase, que os nossos amigos tenham percursos semelhantes aos nossos, tenham gostos e projectos de vida que encaminhem as coisas de forma fluida para objectivos que nos interessam e nos fazem sentido.

Lentamente, sem quase darmos por isso, vamo-nos afastando dos amigos que nos acompanharam até então e que começaram a parecer esgotados.

Já sabemos tudo o que têm para dizer, já nos cansam as piadas costumeiras, já não nos dá prazer almoços rápidos e jantares muito combinados.

Continua-se a afirmar a enorme amizade que nos liga e que cada vez mais se traduz em menos zonas de partilha e comunhão.

A vida, o trabalho, as respectivas famílias e a falta de tempo escondem suficientemente bem o desinvestimento afectivo que não se assume.

Mais à frente, os amigos vão sendo cada vez mais conjunturais, mais fruto das circunstâncias e das necessidades práticas de alianças. O registo muda definitivamente para relações sociais com diferentes graus de proximidade e utilidade.

Quando a vida dá para o torto, quando os empregos falham, os divórcios acontecem e tudo se baralha dentro e fora de nós, temos saudades dos amigos de outros tempos e da fantasia de incondicionalidade que os fazia ter brilho.

Aí contentamo-nos com os que há e escolhemos criteriosamente com quem podemos contar, de que modo e com que limites precisos.

Descobrimos então que nem todos os amigos são para todas as ocasiões.

 

Maneta Alhinho

 

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  Comentários
Nome: Lizete Carmo Dias Localidade: Lisboa
 

Mensagem: Compartilhei com este homem as páginas do mesmo órgão de informação. Aprendi muito, mas acima de tudo aprendi a respeitar o
próximo, que são actos de grande humanismo, que o Alhinho transmite logo quando o conhecemos. É bom rever este colega de outras "guerras", bem mais difíceis que as de hoje. Ao nível da comunicação, como é bom de ver. Fico contente pelo Portal e pelo Alhinho. Existe uma simbiose perfeita entre o escrever sério e com talento e as fotos, pensamentos e alcunhas que nos divertem muito. Digamos, que a dupla está perfeita. 09.03.03

Nome: Carla Andrino Localidade: Sintra
  Mensagem: A este textos eu chamo uma obra literária de elevado conteúdo cultural. Apenas e só. Felicito o Portal que me foi recomendado, por possuir nos seus quadros tão ilustre personalidade. Dá gosto sermos
levados pelas suas palavras. Sabe-nos bem. Faz-nos bem.Sentimo-nos bem. Está tudoben. Parabéns. 10.03.03
   
Nome: Artur Vaz Localidade: Brejos de Azeitão
  Mensagem: Mais um bom naco de prosa de um grande mestre do Jornalismo. Companheiro das lides jornalisticas, não poderia deixar de exprimir a minha gratidão a um Amigo que está sempre prestes a ajudar e
a tornar a nossa Vida mais agradável, pois a sua experiência enriquecedora é fruto das vivências que ele próprio foi protagonista.
Força amigo e companheiro, a tua escrita é verdadeira,és um exemplo da
mais genuina prova de Amizade. Um abraço Artur Vaz 10.03.03
   
Nome: Fernando Alexandre Rodrigues Localidade: Almada Email: f.rodrigues@gmail.com
  Mensagem: Não existem palavras para defenir este texto. Está tão bem
elaborado que não precisa de grandes considerandos. As palavras falam por si e define-nos a amizade da infância até aos dias de hoje, com um
realismo descritivo inovador em escrita. Fiquei leitor e visitante deste
ilucidativo site do Alentejo.11.03.03
   
Nome: J.Biscaia Localidade: VILA BOIM Email: j.biscaia@sapo.pt
  Mensagem: Não sei o que te possa dizer sobre o que tu escreves. Só te digo que é com um enorme orgulho eu poder dizer a toda a gente que este ESCRITOR é meu primo. Obrigado Primo e continua a fazer aquilo que sabes fazer tão bem. ABRAÇO do teu primo JOSE MARIA. 13.03.03
   
Nome: João Franco Localidade: Alpalhão
  Mensagem: A amizade tem muito que se diga. Em termos de literatura a
análise está bem feita. Na prática, muitas questões se levantam, por
exemplo a fidelidade dos grandes amigos. Já se extinguiu com o tempo
. 14.03.03
Nome: Hugo Ribeiro Localidade: Alegrete - Portalegre
  Mensagem: A verdadeira amizade está na infância. A partir daqui são jogos de interesse ou conveniência. A crónica está perfeita e bem estruturada e os outros comentários já disseram o resto.16.03.03
   
Nome: Rui Unas Localidade: Lisboa
  Mensagem: Cuidado com os amigos. A tua entrevista é séria e dizes que o teu maior defeito é confiar nas pessoas. Como se diz no nosso alentejo,«um olho noburro, outro no cigano». A amizade é algo que não se vende nem se compra, acontece. O teu trabalho está um espectáculo, aliás dentro do estilo que já habituaste os amigos e os teus leitores. Continua AMIGO.16.03.03
   
Nome: Carmen Luisa Silvestre Localidade: Palmela
 

Mensagem: Não temos dúvidas que estamos perante um caso sério da nova geração de escritores portugueses. Quem escreve desta maneira só pode ter por limite o infinito e acredito que deve ser um ser humano que sofre na solidão. Segunda feira, acreditem vai ser o tema da minha aula de Português, este da "amizade". Prometo dar-vos os resultados da análise ao tema. Não havia hipóteses de colocarem o email do cronista junto do seu nome? 17.03.03

Nome: Jorge Barradas Localidade: Borba
 
Mensagem: Eu tinha uma série de amigos que considerava verdadeiros. Hoje, após o meu divórcio, possuo apenas os dos copos e só interessam pela companhia, muitas das vezes chata e repetitiva. É triste, outrora uma familia onde tudo convivia, hoje, nem pode ver só porque me afastei e aconteceu um divórcio. Não temos dúvidas que os grandes amigos foram os da infância. Quero tirar-lhe o meu boné pelo texto que acabei de ler.
Obrigado.
21.03.03
Nome: Vilma Reis Localidade: Lisboa
 
Mensagem: Este artigo fez-me recordar os tempos de criança e nessa altura tinhamos verdadeiros amigos(as), aos quais podiamos confiar por inteiro.
Hoje, apresentamos uma amiga e ficam-nos com o namorado. Enfim...Um
desabafo para dizer que adorei o seu trabalho caro conterrâneo afastado
também das suas origens, mas que vai lutando e elevando bem alto a
bandeira do Alentejo. Fico feliz pelo seus trabalhos e a forma como aborda
os temas e repare que li todos. Felicidades para si e para o Portal (que
penso ser gente boa).
21.03.03
Nome: Marc  Amaro Localidade: Bruxelas
 
Mensagem: Na minha terra diz-se que amigos têm as p....O seu trabalho está excelente. Sou filho de alentejanos e revejo-me neste portal, só que o senhor escreve muito bem português. Parabéns a todos.22.03.03
Nome: João Cunha Rego Localidade: Cascais
 
Mensagem: Este trabalho está simplesmente fantástico. O texto fala por si e o autor descreve-o de uma forma soberba. Um novo escritor a ter em
consideração pelas editoras portuguesas. Vou referenciar e passar a
palavra. As minhas saudações literárias. João Cunha Rego .22.03.03
Nome: Vitor Maneta Localidade: Ponta Delgada
 
Mensagem: Primo e amigo Quim, é com muito orgulho e prazer que leio os
teus artigos neste portal, que tu me indicaste, desejo que continues a ser
aquilo que eu sempre conheci de ti. Um grande abraço e muitas felicidades. Vitor Maneta 23.03.03
Nome: Carmen Silvestre Localidade: Palmela
  Mensagem: Prometi dar o resultado da minha aula com a turma do 11.º ano, cujo tema foi em exclusivo este texto sobre a "Amizade". Posso garantir ao Portal e ao autor de que o seu texto foi animador e criou alguma contravérsia, nomeadamente no que diz respeito à fidelidade da amizade. No conjunto dou-me por satisfeita, assim como os alunos, pois o texto já por si ajudava na compreensão. Tenho análises muito sóbrias sobre este tema. Obrigado pela ajuda.24.03.03
Nome: João Carlos Carriço Localidade: SinesEmail: j.carrico@sapo.pt
  Mensagem: Os amigos devem ser para todas as ocasiões. Veja-se o exemplo, foi um amigo que me acinselhou a visitar este site. Eu ainda acredito nos meus amigos, que não são muitos e que até à data não me têm defraudado.
Quanto à crónica, os outros comentários já o defeniram e muito bem. Fiquei dislumbrado com o vosso site. Tem muita qualidade. Parabéns
24.03.03
Nome: Joaquim Pirico Localidade: Vila Boim e Carcavelos
  Mensagem: Foi um prazer enorme saber que o Quim Arlindo escreve com este desenbaraço todo. Um homem da cultura que faz engrandecer Vila Boim. Sr. Presidente Pisco Romão existe algo na Junta que se possa fazer a este conterrãneo? Penso que sim. Então não adormeçam e distingam as pessoas que pugnam pela nossa terra. Gostei de ler as "guerras" de amizade entre os miudos do Castelo, do Gatão e do Rossio. Foi muito bem aproveitada a ideia. Fico feliz por si e pelo seu excelente trabalho. Este fim d semana vou ler os outros artigos. Viva Vila Boim. 24.03.03
Nome: Paulo Domingos Murteira Localidade: Beja
 
Mensagem: Depois destes comentários que mais poderei eu acrescentar? Que o Alentejo tem pessoas com um nível cultural acima da média e não somos aqueles desgraçados das anedotas. Valores destes fazem do alentejo uma grande provincia de homens capazes.25.03.03
   
 
 
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