Foto:Lídia Carujo
Chover no Molhado

23.02.2007

Maneta Alhinho

Já se sabe que viver em sociedade é uma canseira. Que estamos sempre a começar de novo, a fazer os mesmos gestos, a repetir, como se tivesse graça, ou fosse engraçado, uns tantos chavões, umas tantas frases batidas, as queixas do costume e, já agora, porque não, a esperança idiota a que nos agarramos para sobreviver, os pequenos e grandes afectos que vamos sentindo e querendo sentir, no reconhecimento da dificuldade da estranheza e também do privilégio da existência.

Devemos, quase todos ter vocação para chatos. De certeza. Deve ser daí que vem esta curiosa tendência para nos agarrarmos com unhas e dentes a umas tantas pessoas. Para demarcar um território que alindamos, em que nos refugiamos e a que chamamos nosso.

Para conseguir, entrar ano e sair ano, estamos horas em filas várias, esperando sempre. Para achar que é mesmo assim toda a gama de injustiças e bizarrias com que nos cruzamos, ou que vemos de longe entre a preguiça, a tentativa de indiferença e a mágoa fininha e entranhada.

Repetimos automaticamente tantos gestos que já nem é inquietante ligar o telefone duas vezes seguidas para a mesma pessoa a perguntar a mesma coisa ou lavar uma e outra vez os dentes em caso de dúvida.

Repetimos e habituamo-nos ao gesto, à ideia, à palavra, acabando por nos sentirmos confortáveis com a previsibilidade do que nos espera, com a segurança que o controlar tudo, mesmo que o tudo seja infinitamente pouco, acarreta.

De vez em quando, olhamos para trás e reparamos que passou muito tempo e estamos exactamente no mesmo sítio, com o mesmo discurso, as mesmas dificuldades, pessoas, medos e anseios.

Ou, então, invade-nos a sensação de déjà vu, descolamos de nós e penetramos num registo sensorial em que todas as impressões e imagens se repetem ou se rememoram.

Sempre as mesmas.

Às vezes, só às vezes, afligimo-nos seriamente com aquilo a que chamamos rotina, com a estranha compulsão que nos conduz inexoravelmente a transformar novidades em hábitos, surpresas em expectativas, pessoas bonitas em mulheres invisíveis, momentos felizes em direitos adquiridos.

Às vezes, muito às vezes, damos conta que o tempo de que dispomos é limitado, que os seres que amamos não são eternos na disponibilidade e na presença, que os nossos pretensos adquiridos se desgastam e degradam como, aliás, é suposto.

Por excepção, em momentos únicos e breves, damos conta que a chuva tem mesmo de cair no molhado e aproveitamos uma velha metáfora para significar outro dia.

 

Maneta Alhinho

 

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  Comentários
Nome: José Travanca Localidade: Sassoeiros _ Carcavelos
 
Mensagem: Um belo texto, que define o nosso dia a dia. Há vezes que nos esmurece a vida, outros dias parece-nos que vamos ser eternos. Uma visão perfeita abramgendo as duas vertentes. Acredite que não irei colocar água onde ela já existe. Obrigado por tão bons ensinamentos. José Travanca e Emilia Correia Travanca. Data:23.02.07
   
Nome: Andreia  Sarmento Localidade: Lisboa
  Mensagem: Na realidade é um facto que passamos a vida a repetirmo-nos e a queixarmo-nos de tudo e de todos. Somos um povo de queixumes, de lagamiches e de não lutar pelas coisas que ambicionamos. Data:24.02.07
   
Nome: Suzete Dias Reis Localidade: Portalegre Email: s.reis@sapo.pt
 
Mensagem: Um retrato fiel do nosso quotidiano, muito bem elaborado. Gostei da frase, que "a sociedade é uma canseira", expressão tipicamente
alentejana não muito usual nos escritores. Infelizmente é um retrato vivo
da nossa vivência na sociedade. Tudo isto se acaba um dia e deixará de ser uma canseira. Um belo texto digno dum site engraçado. Parabéns aos
autores. Data:24.02.07
   
Nome: José de Sá Miranda Localidade: Famalicão Email: js.miranda@hotmail.com
 
Mensagem: Não necessita de grandes comentários. A isto eu chamo, um
excelente trabalho literário. Quem sabe sabe, quem não sabe, leia, para
aprender. Data:24.02.07
   
Nome: Rolando Matos Localidade: Quinta do Conde - Sesimbra
 

Mensagem: Para quando caro amigo um edição literária, com estas belas
crónicas? Fico a aguardar e parabéns pelos seus magnificos trabalhos.Nósb
os artistas temos muito que agradecer a este homem. Desculpa, sei que não gostas destes piropos. Aquele abraço. Fiquei visitante do site. Está muito bem organizado. Falta apenas um canto da poesia. E o Alentejo deve ter muitos. Rolando Matos. Data:25.02.07

   
Nome: Armindo Gonçalves Localidade: Amora - Seixal
 

Mensagem:

Quem disse que eras Maneta
confrade Maneta Alhinho
és um às na caneta
e direito o teu caminho.

Escrevi isto, para o teu primeiro livro. Lembras-te? Estás a escrever como ninguém e eu sempre reconheci as tuas capacidades e já lá vão 30 anos. Fico feliz por ti e por mim. É um prazer ter privado contigo na redacção do jornal. Não resisti, acredita? Vá um abraço para esta gente boa do Alentejo. Um dia convidas-me a conhecer essa gente laboriosa e que sofreu nessa planície de canseiras, como tu referes em relação à sociedade. Fico orgulhoso de ver-te aqui e o teu Alentejo saberá um dia reconhecer o homem que tu és. Agora vou ser visitante assíduo. Jornalista Armindo Gonçalves/SIC. Data:26.02.07

   
Nome: Josué Ricardo Santos Localidade: Cascais Email: j.santos@hotmail.com
  Mensagem: Esta sociedade é uma trampa. ESte trabalho está descrito com clareza, responde num todo, onde perdemos o nosso precioso tempo.
  Data:01.03.07
Nome: Serginho Localidade: Lisboa
  Mensagem: Não consigo comentar este trabalho, porque está muito bem feito, pelas mão de um mestre da escrita. Quem sou eu para comentar texto de tão elevado conteúdo literário e com uma visão perfeita da vida. Apenas, diria que não deviamos dar importância a coisas tão mesquinhas que nos atropelam o dia a dia. Data:03.03.07
Nome: Filomena Casão Localidade: Santo Aleixo
  Mensagem: São homens como estes que o nosso Alentejo precisa. Maduros, giros e cultos. Por cá, a literatura é na taberna, onde os ensinamentos são qual a bebida com maior graduação. Parabéns ao Portal. Felicidades para o Sr. Maneta Alhinho, de quem sou assidua leitora das suas crónicas.
   
 
 
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