Ano Novo?
30-12-2005
Paula Lebre - 15.30 H |
“- Podes dizer-me , por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? – perguntou Alice.
- Isso depende muito de para onde queres ir. – respondeu o gato.
- Preocupa-me pouco aonde ir. – disse Alice
- Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas. - respondeu o gato.”
Lewis Carol- “Alice no Pais das Maravilhas”
Certas datas são especiais sobretudo porque nos levam a reflectir sobre nós e sobre o mundo.
A passagem de ano é a data mítica em que prometemos a nós próprios muitas mudanças no nosso comportamento, na nossa vida e fortalecemos a esperança de realização dos nossos sonhos.
Na mudança de calendário fazemos planos mas não assumimos uma missão pessoal. Queremos mudar o rumo mas sem traçar caminhos. Os planos ficam sem as estratégias que nos permitem definir limites e tomar as decisões correctas, para atingir os nossos objectivos sem derraparmos no caminho quando surgem as barreiras imprevistas.
Para podermos definir estratégias, temos de ter consciência das etapas da vida pelas quais somos obrigados a passar. Mas a verdade é que só aprendemos isso quando já as vivemos.
Esta é a principal razão por que deveríamos dar atenção ao que os mais velhos nos podem ensinar.
No mundo Ocidental, onde até as pessoas são descartáveis, tudo corre para o dinheiro numa luta onde poucos sobrevivem.
Compaixão, Amor ou Perdão não se resumem a práticas religiosas. São valores fundamentais na relação entre os seres humanos. Estamos tão ocupados a lutar por mais dinheiro que só nos lembramos destes valores quando dependemos deles: no nascimento e no envelhecimento.
Não paramos para ouvir quem já viveu, para recuperar energia espiritual necessária ao nosso melhor desempenho , para sentir o prazer de viver, para nos rirmos daquelas gracinhas que nunca mais os nossos filhos repetirão, …
Gastamos energias em tentarmos ter um carro novo como o do vizinho, em descobrirmos que a vizinha tem um amante, em fazermos também do nosso filho um futebolista à força porque pode ganhar muito dinheiro, a censurarmos quem erra por nos julgarmos invulneráveis …
Fazemos planos para termos mais qualidade de vida, na esperança de mais felicidade. Mas quando esta esperança se resume a ganhar mais dinheiro, a felicidade permanecerá adiada.
Alguém disse :“ Não há nada de nobre em sermos superiores ao próximo. A verdadeira nobreza consiste em sermos superiores ao que éramos antes.”
Tornarmo-nos mais afectuosos com os outros, deveria ser a nossa missão pessoal para o novo ano. Como estratégia, desacelerávamos o ritmo da ânsia com que vivemos os nossos dias de modo a prestar mais atenção a quem nos rodeia: ao companheiro, aos nossos filhos, aos nossos amigos, com quem nos cruzamos na rua…
Dar um pouco de atenção, um pouco de tempo e de afecto aos outros é o caminho que poderá mudar realmente a nossa vida fazendo de nós melhores seres humanos. Receberíamos de volta esse afecto quando fosse a nossa vez de precisar. Nunca viveríamos o abandono. Devia ser este o nosso sonho.
Os sofrimentos são inevitáveis na vida, mas viver na solidão é o único que só existe se o Homem quiser.
Desejo apenas para todos um ano sem solidão.
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