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Aceitei o desafio e a responsabilidade de escrever com regularidade neste espaço por vários motivos. Todos eles assentes em convicções cívicas e tudo que até agora escrevi, não é mais que uma partilha das inspirações e reflexões do meu estilo de vida e da sociedade que vou conhecendo. Nunca foi minha intenção substituir o livro de reclamações ou denunciar confidências de terceiros.
Desta vez abro a primeira excepção porque a intensidade da minha indignação não permite acomodação. Além de que, mais uma vez, a minha ferocidade cívica e instinto maternal assim o exige. No entanto, mantenho o relato indefinido e intemporal por respeito às vítimas.
É muito ingrato, até uma desonra para todos os médicos dedicados, competentes e solidários, a incúria e o desleixo de uma médica num consultório do Centro de Saúde que nega observar uma criança de 9 anos febril, prostrada e com uma tosse aflitiva, argumentando sem qualquer pudor, que só é paga para trabalhar até às 20.00H. A mãe da criança confirmou que ainda eram 19. 50H, mas mesmo assim, saiu da consulta de recurso sem saber o que tinha a menina, embora lhe tenha sido entregue uma receita médica passada à pressa mas sem qualquer observação clínica (nem sequer uma auscultação).
A maioria dos utentes de uma instituição de saúde, procura um médico atencioso, que compreenda os seus sentimentos de ansiedade, de angústia, de dúvidas e que seja capaz de aplicar o conhecimento técnico e científico para o tratamento.
No Sistema Nacional de Saúde do nosso país, que se adjectiva de “ europeu”, existem dois subsistemas públicos.
O Subsistema Nacional de Saúde de médicos excelentes, que trabalham com zelo e solidariedade nos serviços públicos de saúde, que têm de diagnosticar e tratar, têm de ter um preparo emocional para situações de fragilidade física e/ou psíquica do doente e familiares, têm de dar andamento a procedimentos e burocracias administrativas, têm de contornar com imaginação a falta de recursos técnicos básicos, têm de tomar decisões dificílimas sem o apoio de uma equipa de trabalho… Além de todas estas exigências que desperdiçam tempo, energia e paciência, estes médicos não podem errar, enganar ou falhar. Não lhes é permitido qualquer limite da condição humana e profissional.
Todos os cidadãos devem valorizar e reconhecer estes médicos, que devido à sua excelência e humanidade, estão eles próprios, em risco de “griparem”.
No nosso segundo Subsistema Nacional de Saúde, trabalham os médicos que chegam duas horas atrasados às consultas sem o mais pequeno pedido de desculpas aos doentes que os esperam em sofrimento e sem conforto, consultam com superficialidade, não dão qualquer explicação ou informação de apoio emocional, e o mais grave… não sabem (nem procuram saber) tratar. Estes profissionais que não passam de diplomados em medicina, sem qualquer sentido de responsabilidade ética, profissional e sobretudo sem sensibilidade perante o seu doente e familiar, são os verdadeiros e principais responsáveis pelo sentimento de despeito social geral que vigora pela classe médica portuguesa. Estes profissionais provocam o “gripar” do Sistema.
Casos similares de desmazelo profissional com uma dose de crueldade como o que relatei, alimentam uma opinião pública nada abonatória para a classe médica. Já pouco se pensa sobre a medicina, como um meio de ajudar o próximo. Médico, limita-se a uma das profissões de maior status social com garantia financeira. No entanto, esta generalização, como todas as generalizações, é perigosa e injusta.
A Saúde é o valor supremo da vida individual e social das civilizações actuais. Dela depende a condição da dignidade da vida humana. A nossa Constituição de 1989 já contemplava um sistema de saúde “Geral, Universal e Gratuito”. O que deixa qualquer cidadão português de 2007 ainda boquiaberto…como se tratasse de uma louca utopia…
(…mas sejamos loucamente lúcidos).
Paralelamente a esta incongruência civilizacional do nosso Estado – Previdência, os problemas nos serviços públicos de saúde ultrapassam as leis e os decretos pensados e escritos em salas bem alcatifados da capital. Todas as instituições que prestam os serviços, debatem-se diariamente por uma melhoria de atendimento e acolhimento dos utentes, no meio de um abismo que separa os excelentes dos piores profissionais de saúde.
Nós, os utentes, devemos contribuir para que seja feita a necessária e urgente triagem dos profissionais do mal fadado S.N.S. Para se fazer justiça aos bons médicos portugueses, devem os utentes denunciar os actos irresponsáveis e até obscenos como o que apresento, enquanto “incruento”, na altura devida e nos organismos competentes (livro de reclamações e ordem dos médicos) antes de terem de o fazer por uma negligência fatal.
Paula Lebre
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