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Os historiadores e sociólogos que estudam as sociedades e suas evoluções, ainda não sabem como, onde e por que surgiram os beijos.
As intenções, as mensagens, as sensações, os significados, os prazeres dos beijos são imensos.
Beijar pode ser um acto com magia sexual, uma inocente manifestação de afecto entre pessoas íntimas, mas também pode ser um simples cumprimento imposto pela boa educação.
Independentemente das intenções e do seu valor social, a certeza é que o beijo é um acto natural que faz parte da cultura e da tradição de todos os povos.
Desde que me conheço, o cumprimento tradicional português entre duas senhoras sempre foi com dois beijos na face. Desde há muitos anos que as senhoras já não são beijadas na mão e os dois beijos na cara também são naturais e vulgares entre um homem e uma mulher.
Actualmente, surge-me com frequência situações em que fico surpreendida e atrapalhada com a cara perdida no ar à espera do segundo beijo, que não sei porquê nem quando – não se dá.
Cansada de ficar com a cara de lado e reconhecendo a minha falta de cultura dos rituais formais sociais, resolvi procurar informação sobre “ etiqueta”, mas não consegui esclarecimento sobre o assunto.
Finalmente, descobri que o dilema dos beijos não era só meu. José António Saraiva já tinha a investigação feita e com ele eu aprendi que em Portugal, o beijo além de ser um gesto de educação, passou a veículo intencional de denuncia sectorial da sociedade.
A citação que abaixo apresento não é um estudo com base científica. È a contestação de um cidadão atento aos pormenores que parecem insignificantes à maioria, e por isso ridículos, mas que são os mais importantes reveladores na caracterização de um povo.
Estou muito longe da capacidade de escrita deste jornalista, por isso, aproveito este espaço para mais pessoas tomarem conhecimento, de forma eloquente, da razão pela qual ficam tantas vezes com a cara de lado e perdida à procura de um beijo.
“(…) A democracia tornava todos ‘iguais’. Os cumprimentos com beijinhos deixaram de ser um exclusivo das classes médias urbanas, passando a ser distribuídos com profusão por todo o género de pessoas (…)
A coisa assumiu tais proporções que as pessoas que se julgavam proprietárias de um estatuto superior começaram a evitar os beijos. Tinham medo de se confundir com a ‘gentinha’.
Foi então que alguém teve uma ideia luminosa: ‘recuperar’ o ‘beijo único’, que se usava em algumas aldeias do país. Esse beijo solitário passaria assim a funcionar como sinal diferenciador de classe. Como elemento distintivo para quem não queria confundir-se com o ‘povo’. Enquanto a ‘gentinha’ continuava a dar dois beijos, a gente ‘bem’ passava a dar apenas um – marcando assim a diferença e denunciando os intrusos.
Claro que se instalou a confusão. Como nem sempre se conheciam os hábitos em matéria de beijos da pessoa que se ia cumprimentar, começaram a suceder-se os desencontros. Quantos não ficaram de cara pendurada e sorriso amarelo porque se tinham programado para dar dois beijos e o outro virou a cara depois do primeiro?
A situação ainda se agravou quando se constatou a existência de uma ‘terceira via’: algumas pessoas ‘verdadeiramente bem’ entenderam que o beijo único era uma parvoíce de novos-ricos, de gente necessitada de se distinguir através de pormenores ridículos, e decidiu manter-se fiel à tradição dos dois beijos.
E assim passámos a ter ‘gentinha’ pelo país fora cumprimentando-se com dois beijos (ou já só com um, porque entretanto começou a copiar o comportamento da classe acima), gente ‘bem’ que adoptou a moda do beijo solitário e gente ‘muito bem’ que se manteve fiel ao par de beijos.
Com todas estas confusões, hoje ninguém se entende. Quando se vai beijar alguém que não se conhece, pensa-se antes: será um ou dois beijos? E a outra pessoa terá a mesma dúvida. (…)
Por estas e por outras, a Assunção Cabral, na sua rubrica Etiqueta, aconselhou os leitores a avançarem resolutamente para os conhecidos de mão estendida – sejam eles homens ou mulheres, velhos ou novos, abastados ou remediados, gente ‘fina’ ou ‘menos fina’. Assim, não haverá confusões. (…)”- Publicação: Monday, December 04, 2006 por JAS
Confusões à parte, afinal …venha quem vier, a tradição mantém-se e a boa educação ainda são os dois beijos.
Paula Lebre
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