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Momento de solidão

05-12-2005
Paula Lebre - 19.30 H

Os momentos de solidão sempre me fizeram falta. Na adolescência, serviram para sonhar acordada com os rapazes por quem me apaixonava secretamente, com as vidas das belas personagens dos filmes que sempre acabavam felizes e com sorte…

Agora, quarentona, os momentos de solidão dão-me simplesmente uma felicidade tranquila e uma sensação nostálgica de liberdade. São momentos em que procuro refúgio para o meu inconformismo na força das sinfonias de Beethoven, acompanho as minhas recordações no encanto das obras de Mozart ou encontro algumas respostas para a vida nas melodias de Tchaikovski…

Estes momentos de solidão não são apenas uma fuga à minha incapacidade de me integrar na comunidade elvense. Não servem de lamento! São sobretudo a minha fonte de energia que necessito para conseguir sobreviver com optimismo à realidade quotidiana.

Recentemente, enquanto me esforçava por vencer o meu sofrimento provocado por uma doença inesperada com a ajuda de um concerto envolvente de Rachmaninov, senti-me com mais sorte quando me lembrei de que há outras pessoas mais gravemente doentes. Ou seja, confortei-me no mal dos outros. Um conforto que gerou outro desconforto; um sentimento de culpa: - Por mais que lamente o sofrimento alheio, é a ele que recorro para conseguir suportar o meu.

Por ser condescendente com todas as religiões, não sendo fiel a qualquer uma, há quem me acuse de não ter fé. A verdade é que não me conformo com a inclemência e coerção dos poderes religiosos instituídos. No entanto, o meu respeito intocável pelos valores humanos que todas elas representam, são a justificação para a razão dos meus actos e da minha vida.

Aprendi que nos momentos em que somos postos à prova, não passamos sem cábulas porque a não há sebentas de estudo e de preparação para a vida. Esquecemos toda a teoria. Só conseguimos aprender com aulas práticas.

Na época natalícia, talvez por tudo estar mais iluminado, cintilante e colorido, ficam mais visíveis as patologias da sociedade. Isto diminui a minha esperança num renascimento social e aquela maravilhosa nostalgia dos meus momentos de solidão torna-se desconfortável e deprimente.

Apesar de toda a beleza da mensagem espiritual do Natal, ele serve também para incorporar muita hipocrisia. Até a realidade passa a ser vivida como de uma ilusão se tratasse. Pois assim se libertam culpas de muitas consciências.

Feliz Natal para todos

Eu, …mais uma a “ brincar à caridadezinha”.

 

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