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Falar de violência doméstica não se reduz à agressão física e abuso sexual em famílias com ambientes de pobreza e de ignorância.
Também é violência o abuso psicológico ou até mesmo a negligência de forma continuada por um parente em condições de superioridade física, etária, social, psíquica ou hierárquica. É um assunto de todas as raças, classes sociais e que acontece tanto em espaços rurais como urbanos.
Quase todos nós nascemos e crescemos no seio de uma família, cada uma com a sua história, com os seus valores morais, políticos e sociais. A palavra “família” emite uma mensagem romantizada, de ternura, de segurança, de amor, de protecção ou de apoio. Todos sabemos que na realidade, muitas vezes este conceito é um equívoco, e mesmo nas famílias com laços de ternura fortes, surgem momentos e situações de conflitos difíceis de gerir. Quando existe sentimento de superioridade de um dos elementos em relação a outro, acontecem actos de violência mais ou menos graves.
Na grande maioria dos casos de violência doméstica, as vitimas são as mulheres, as crianças ou os idosos. Para estes, o lugar menos seguro do mundo é o próprio lar, onde vivem um ciclo de violência para eles considerado normal. As crianças expostas a esta rotina, são potenciais agressores futuros, no caso dos rapazes; ou potenciais submissas consentidas futuras, no caso das raparigas; fazendo persistir um tipo de “destino feminino” que a sociedade patriarcal, ainda hoje vigente, disfarçadamente consente e pela qual as instituições religiosas não estão isentas de responsabilidade.
Neste contexto, a ONU declarou em 1993, que este facto é um obstáculo ao desenvolvimento, à paz e aos ideais de igualdade entre os seres humanos. 25 de Novembro ficou o Dia Internacional da Não-violência Contra as Mulheres.
Perante a opinião geral, assunto de família ainda é “assunto de família”. A lei não entra dentro de portas e não poucas vezes se compreende com mais facilidade o agressor do que a vitima.
A violência não é um acto inconsciente. Ela é controlada e o alcoolismo, a fúria ou a frustração, não podem servir para vitimar os culpados.
Por outro lado, não raras vezes se diminui a mulher que suporta uma vida de submissão, a depravada masoquista e incapaz de se defender e de se “ vingar”.
Só poderá compreender estas vítimas quem tiver discernimento humano dos estereótipos sociais que se reflectem também na dinâmica familiar.
Quem vive uma situação de submissão e de violência, vive aprisionada de sentimentos contraditórios, de vergonha, de medo, sem auto estima, sem capacidade de decidir e portanto de tomar uma decisão. Ainda mais; sabendo que dificilmente será compreendida ou auxiliada, a mulher vitima de violência, corre o risco ainda de ser acusada de conivente e parcialmente responsável pela situação.
Para a sociedade, é difícil perceber que para estas mulheres é mais importante reaver a sua dignidade do que propriamente vingar o agressor.
Enquanto não conseguirmos compreender a complexidade deste comportamento, não é possível resolver o problema … O ciclo continuará!
Paula Lebre
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