Confiança, é preciso!

25-06-2006
Paula Lebre - 17.00 H

A reacção de aflição, ás vezes de pânico, que os Sindicatos dos Professores apresentam relativamente à proposta do Ministério da Educação em considerar o grau de satisfação dos pais na avaliação dos professores, também tem vantagens, sobretudo no despontar da consciência cívica sobre um assunto adiado há já demasiado tempo:

- Mais de 40% dos jovens até aos 25 anos abandonam o sistema de ensino sem o 9º ano de escolaridade completo e sem qualquer grau de qualificação. (A média Europeia é de 18,1%) – até na Grécia é de 18,5%.

- Apenas 27,8% dos alunos portugueses frequentam cursos tecnológicos e profissionais (A média Europeia é de 54,4%).

- Portugal está nos últimos lugares nos indicadores escolares da União Europeia e dos países da OCDE (níveis de conhecimentos adquiridos, hábitos de leitura, absentismo, abandono escolar, insucesso, …)

Todos nós sabemos que a situação actual da nossa Educação é tão difícil e má que a maioria da população considera-a um sector condenado. Apesar do diagnóstico desta degradação estar bem identificado e relatado em sucessivos estudos continuados, os sucessivos governos têm sido incompetentes na resolução dos problemas.

As referências dos estudos para diagnóstico geral apontam em três pilares bases a resolver:

1- falta de empenho dos alunos

2- desresponsabilização dos pais

3- desânimo dos professores

O primeiro ponto denuncia o fracasso de uma educação voltada durante os primeiros anos de escolaridade para um facilitismo generalizado, onde a escola é mais um espaço de brincadeira e as crianças não aprendem as consequências da falta de dedicação, de rigor e de exigência individual. Mais tarde, o fracasso de um ensino público onde os jovens não encontram razões para estarem, sendo crescente o sentimento de frustração de aspirações e ambições depois de tantos anos de estudo.

É aqui que entra o segundo ponto, – o envolvimento dos pais na Escola tem repercussões no sucesso académico e na estabilidade emocional dos alunos. A Escola faz parte da vida quotidiana de todas as famílias e por isso, todos os pais que se preocupam estão atentos à escolaridade dos seus filhos. Alguns sentem-se impotentes para contrariar a visão, os sentimentos de frustração e a falta de expectativa dos filhos. Os alunos de famílias mais estáveis emocionalmente e que sempre valorizaram o conhecimento, têm mais “chance” de vingar no secundário e até entrar no ensino superior.

O envolvimento parental nas escolas é por isso um objectivo de todas as comunidades educativas, mas a verdade é que apesar da boa vontade de muitos pais e de muitos professores, o relacionamento e diálogo entre a Escola e Família é complexa, difícil e até conturbada. Muitas vezes inexistente.

Algumas escolas públicas conseguem manter relações construtivas com as famílias, mas há também escolas que desprezam e bloqueiam o acesso aos pais como estes fossem uma ameaça.

As dificuldades para um entendimento geral e permanente entre as Escolas Públicas e Pais são de natureza sociológica e por isso não se podem satisfazer todos individualmente mas é possível ir ao encontro da maioria.

Os professores formam um grupo profissional organizado com o centro de decisão afastado e fechado. Os pais, para serem ouvidos têm de se organizar também.

As Associações de Pais enfrentam dificuldades para vingarem nas respectivas comunidades educativas. O maior obstáculo e o mais difícil de gerir é a dispersão dos pais, com as suas expectativas pessoais, agravada com o surgimento dos Agrupamentos de Escolas. Como pode uma Associação de Pais, muitas vezes sem conhecimentos burocráticos, trabalhar em prol de todos os alunos e famílias de, por exemplo, 9 escolas, desde o Jardim-de-infância ao 9º ano de escolaridade?

As outras dificuldades das Associações de Pais são comuns às outras organizações em regime voluntariado: problemas de recrutamento, de representatividade, falta de consciência colectiva e de mobilização dos membros, …

Para ultrapassarem estas e outras dificuldades, as Associações de Pais, têm de recorrer a alianças com outras autoridades escolares, organizações com força política e de decisão, correndo o risco de se envolverem inesperadamente em meandros e jogos de poder e de intriga política ou institucional.

O governo deu o primeiro passo para que as escolas harmonizem regras de relacionamento com os pais e estes sabem agora que as suas acções terão consequências. Os pais terão de ter noção da responsabilidade das suas opiniões e para isso, terão de se informar sobre “as coisas da escola”. Quanto mais envolvidos os pais se encontrarem na vida da turma, mais facilmente compreenderão as funções e as limitações do professor do seu filho. Menos conflituosa será a relação.

Tendo isto em conta, considero muito bem vinda a proposta do Governo para o novo Sistema de Avaliação dos Professores e das Escolas no qual esteja contemplado a opinião dos pais, uma pré selecção de conhecimentos para a actividade docente e uma distinção efectiva entre os maus e excelentes profissionais.

Claro que os pais não estão apetrechados de conhecimentos pedagógicos para avaliar as técnicas e métodos usados na sala de aula por um professor. Mas todos os pais atentos saberão responder a perguntas sobre: - se o seu filho vai contente para a escola, – se o professor lhe telefona quando o aluno falta ou preocupado com a tristeza que o seu filho começou a manifestar, – se foi alguma vez convidado pelo professor para ler uma história na aula, – se participou nalguma actividade da escola, – se o professor passa muito tempo fora da sala de aula, – se há vigilância no recreio, – se vai naturalmente à escola quando tem necessidade de esclarecer alguma dúvida, – se sabe do projecto educativo e do plano de actividades da escola do seu filho, – se sabe como funcionam os órgãos de gestão e quem os representa, …

Relativamente ao terceiro ponto do diagnóstico, enquanto um professor não está vinculado a uma Escola perto da sua casa e dos seus filhos, (os professores também são pais), sem saber para onde irá trabalhar no ano lectivo seguinte, não tem condições para exercer a sua profissão com o gosto, com o mesmo prazer, com o equilíbrio emocional que teria em condições mais justas e dignas.

É urgente adicionar às medidas implantadas pelo presente executivo, maior reconhecimento à actividade docente. As péssimas condições das instalações onde trabalham e a escassez de materiais com que se deparam no dia a dia, não são problemas menores. A ténue definição das competências entre as autarquias e o ministério não proporciona resolução de problemas que parecem elementares e básicos; pessoal não docente, manutenção de instalações, fornecimento de consumíveis e equipamento, apoio em actividades culturais, …

Todas as actividades que um professor, por sua iniciativa, consegue realizar fora da Escola, exige esforços adicionais desproporcionados, não reconhecidos e desmotivadores. Uma simples visita de estudo facilmente é abortada por falta de transporte. É inacreditável!

Todo o conflito que surge nas questões sobre Educação e Ensino, têm por traz a falta de confiança nas relações entre os seus agentes:

Devemos partir do princípio de que as famílias, os professores e os cidadãos, merecem confiança e de que os maus exemplos não são a maioria.

Para darmos às nossas crianças e jovens, a Educação com a qualidade que desejamos, com uma aprendizagem emocional e crescimento pessoal, é fundamental todos nos sentirmos envolvidos e essenciais à causa.

Pais e professores não são inimigos. Apenas falta um clima de confiança.

 

 

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