| Nós
e a Educação
04-02-2005
14:15
Paula Lebre |
A
minha atenção e especial
interesse pelo tema "Educação"
não se reduz à minha
necessidade de orientação,
de esclarecimento, de segurança
no meu papel de mãe, mas
também como cidadã
porque considero os diferentes indicadores
da "Educação"
os melhores relatos da "qualidade"
de uma civilização.
No meu modesto ponto de vista, os
problemas mais graves e complexos
do sistema de ensino em Portugal,
não são as carências
materiais das escolas.
Estes serão resolvidos quando
um governo eleito por nós
não aumentar, por exemplo
o orçamento do Ministério
da Defesa para a compra de submarinos
e afins, enquanto o Ministério
da Educação se vai
aguentando cada vez mais comcada
vez menos.
Estes problemas também desaparecerão
quando os poderes locais alterarem
as suas prioridades não gastando
por exemplo fundos autárquicos
em jantares de Natal para seus funcionários
e familiares enquanto os professores
e os pais mendigam por equipamentos
ou outros recursos em falta nos
Jardins-de-infância
ou nas Escolas do 1º Ciclo.
Enfim, quando os nossos dirigentes
forem sensíveis à
importância do ensino Público
ou decidirem apenas cumprir com
as suas responsabilidades, todo
O augúrio para o sistema
de ensino mudará.
A verdadeira gravidade, pela sua
cumplicidade está nas aprendizagens,
nas estratégias e nos métodos
pedagógicos sem rigor ou
exigência e na ausência
de um sistema de ensino organizado,
sustentado e definitivamente eficaz.
Mas falar de educação
não é só falar
de ensino ou das Escolas.
Educação não
é só "saber".
Educação é
também e sobretudo "ser".
Falar de Educação
é falar das famílias,
dos vizinhos, de quem vende o pão,
da menina da caixa do super mercado,
do porteiro da escola, dos funcionários
da Repartição de Finanças,
da telefonista, da Senhora que passa
na rua a varrer
e limpar ervas, do advogado, dos
Jornalistas, dos futebolistas e
seus dirigentes,do Presidente da
Junta, do Presidente da República,
de todos os políticos e de
nós próprios.
Ouço com alguma frequência
alguns adultos criticarem comportamentos
de alguns jovens, classificando-os
de calculistas sem noção
de responsabilidade, que só
querem gozar a vida de forma consumista
e sem interesse pelas questões
públicas.
Deveriam estes adultos estarem assim
tão surpreendidos com a indisciplina,
com a falta de respeito pelos outros,
com o vedetismo, presunção
e vaidade
de alguns jovens? E o que deveríamos
esperar de jovens educados por nós?
Se olharmos para nós com
os mesmo olhos que olhamos para
os mais jovens que avaliamos, criticamos
e demasiadas vezes condenamos, podemos
perguntar:
Que valores e exemplos praticamos
nós, os adultos na nossa
sociedade? Numa sociedade onde a
agressão verbal pública
é constante e por isso já
considerada normal! Onde se estacionam
os automóveis nos passeios
ou sobre uma passadeira frente a
uma Escola sem a mínima preocupação
por quem precisa de andar a pé!
Onde há tantas mortes em
acidentes de trabalho! Onde se morre
e se mata na estrada! Onde se queimam
florestas! Onde as crianças
brincam com armas de fogo e morrem
quando se penduram em balizas! Onde
se morre por afogamento nas praias
por desrespeito aos avisos das autoridades!
Onde os políticos podem fazer
o que lhes dá na gana sem
se preocuparem com as punições
judiciais ou criminais quando violam
leis bastando como consequência
a respectiva demissão politica!
Onde esses mesmos políticos
são movidos por interesses
pessoais e não pela defesa
de convicções, que
mudam de cargo consoante as suas
próprias vantagens pessoais
ou até de partido se facilitar
uma ascensão mais rápida
na hierarquia politica! Onde a corrupção
e as mentiras para a conquista das
ambições e objectivos
pessoais é entendida como
direito à liberdade individual
defendida pelo liberalismo! Onde
os aumentos salariais quando concedidos
são percentuais, como quem
ganha 5.000€ precisa de um
bife maior à mesa enquanto
quem ganha
500€ precisa de mais um papo-seco!
Onde a justiça permite a
compra da liberdade vendendo cauções
a quem pode pagar (mesmo que seja
com dinheiro do crime)! Onde os
processos judiciais têm prazo
de validade! Onde quem foge aos
impostos e apresenta sinais de riqueza
recebe com toda a glória
e sem qualquer pudor subsídios
estatais para pagamento de colégios
particulares para os seus filhos!
E a sociedade lhe sorri como para
um "ilustre" cidadão
a quem todos cumprimentam com entusiasmo
na esperança de aparecer
também na revista dos "ilustres"!
Onde as famílias gastam o
rendimento mínimo para o
leite dos seus filhos em telemóveis
enquanto rejeitam ofertas de trabalho!
…resumindo! Que poderemos
nós esperar dos jovens numa
sociedade onde os cidadãos
honestos, trabalhadores e cumpridores,
que tudo que conseguem gradualmente
vai cheirando cada vez mais a suor,
estão condenados a não
passarem da cepa-torta porque ninguém
os valoriza, ninguém os admira,
ninguém lhes tira fotografias
para as revistas sociais e por ironia,
ninguém lhes dá crédito?
O nosso lugar na Europa, no Mundo,
são lugares sem prestígio.
Não por causa dos défices,
pactos de estabilidade ou outros
acordos económicos.
O nosso lugar no Mundo depende essencialmente
da nossa Educação,
ou seja, da nossa formação
individual e colectiva.
Uma pessoa bem-educada não
é quem tem um diploma timbrado,
uma carteira recheada de Euros,
um apelido de elite social ou um
cargo público importante.
Uma pessoa é Educada quando
vive a sua vida de acordo com os
valores humanos reconhecidos e conquistados
por uma civilização
justa.
Elevar a mentalidade de um povo
é elevar a qualidade de uma
sociedade e isto não se consegue
com dinheiro. É com atitude!
A minha, a sua e de todos.
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