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A minha utopia

 

06-08-2005
Paula Lebre

Como cidadã, a politica interessa-me porque dela depende a vida de todos nós. Como cidadã, julgava eu que exercia actividade politica quando expunha as minhas opiniões e votava. Hoje, faço-o apenas por cumprimento de um dever e por gratidão. Descobri com muita tristeza que os desejos e necessidades dos cidadãos, pouco ou nada interessam aos políticos e que o poder do voto é uma ilusão.

Para influenciar directamente nas decisões politicas ou exercer verdadeiramente esse serviço público , a democracia exige a um simples cidadão que pertença ou colabore com um partido politico português de hoje: sem fidelidade ideológica, sem sentido de nação e onde tudo é permitido para que vinguem os interesses individuais dos seus membros e os do próprio partido.

Hoje , tanto à escala autárquica como à escala nacional, já se vai para a politica para ganhar dinheiro e protagonismo. A coerência de carácter dissolve-se num jogo onde o único objectivo é ganhar eleições e arranjar lugares rentáveis para os familiares e amigos. O que se pode ganhar quando se está no poder é tão aliciante que não permite renovação . Os cargos públicos passam a ter donos. Esses donos preparam discípulos à sua imagem e interesse. E o reinado mantém-se !

Como se poderá alterar todo este sistema de “democracia” inquinada ? Outra Revolução ? Temo que seria uma revolução menos pacifica do que há 31 anos.

As injustiças cada vez mais frequentes, a difusão do desespero ou o crescente sentimento de impotência de muitos cidadãos , acicatam fenómenos imprevisíveis, por vezes catastróficos e que poderiam ter sido evitados. (… cuidado com a revolta dos “mansos”…).

Contra a maré, esforcei-me para acreditar e defender alguns políticos em quem depositara as minhas derradeiras mas firmes esperanças. Cheguei a ser alvo de criticas pela minha relutância em admitir que todos os políticos são iguais.

Muito me custa escrever isto, mas a realidade obriga-me a reconhecer que as pessoas competentes, honestas, com verdadeiro e nobre sentido de serviço público não conseguem sobreviver nos “aparelhos” dos partidos políticos.

Não será isto uma nova espécie de ditadura politica?

Em quem devo confiar?

As minhas convicções politicas são utopia nos dias de hoje em Portugal. Resta-me ter fé que um dia algo inesperado aconteça para que o Portugal de “amanhã” possa ser o que alguns países têm a coragem de ser hoje.

O que será necessário acontecer?.. (tenho pudor em dizê-lo. )

Apoio e louvo todas as medidas governamentais , mesmo as que me prejudicam pessoalmente, sempre que tenham como objectivo o bem colectivo no presente e no futuro. Não compreendo as cedências a influências de grupos organizados por serem demasiado poderosos.

Compreendo que todos devem fazer sacrifícios hoje para garantir o amanhã. Mas não compreendo quando os sacrifícios não são distribuídos com justiça e equidade.

Compreendo que a incompetência seja demitida . Não compreendo que essa incompetência seja indemnizada com dinheiros públicos.Ainda mais se os demitidos são substituídos por ex-demitidos mas que pertencem ao “aparelho” do partido de quem nomeia.

Além de tentar pôr fim ao demérito em toda administração pública , a coragem politica existe quando se enfrentam também os sistemas viciados mais fortes : instituições fantasmas, organizações comerciais e financeiras, oportunismos dos políticos (incluindo os do próprio partido)…

Gostaria um dia de sentir orgulho nos nossos ministros, secretários de estado, deputados, presidentes de câmara e de freguesia. Gostaria que esse dia fosse hoje. É esta a minha utopia.

 

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