Hoje, gostaria de partilhar convosco uma história muito curiosa, que nos remete para a relação de cada um de nós com o resto do mundo. É um conto simples, de Manuel Monge, dotado de uma extraordinária imaginação, que impõe uma reflexão sobre a interioridade e a exterioridade de cada Ser.
Num dado ponto do planeta existia uma horta, como tantas outras, cheia de legumes, árvores de fruto e toda a espécie de plantas. Existia, nesta horta, uma frescura ímpar e uma beleza marcante. Não admira, por isso, que desse gosto sentarmo-nos à sombra de uma árvore qualquer a contemplar aquela maravilha, todo aquele verde, o canto dos pássaros…
Porém, sem que para tal houvesse uma explicação, a certa altura começaram a nascer umas cebolas especiais. Cada uma tinha uma cor diferente: vermelho, amarelo, azul, verde, laranja… E a verdade é que as cores eram deslumbrantes, cintilantes, mágicas, como a cor de um olhar, a cor de um sorriso, ou a cor de uma bonita recordação.
Depois de prudentes investigações sobre a causa daquele misterioso resplendor, concluiu-se que cada cebola tinha dentro, no coração, uma pedra preciosa. Umas tinham uma esmeralda, outras um rubi, outras um diamante, outras uma safira… Uma verdadeira maravilha!
No entanto, por alguma inexplicável razão, começou a dizer-se que isso era perigoso, intolerável e até mesmo, vergonhoso. Este clima de suspeição fez com que as cebolas começassem a esconder as suas pedras preciosas com capas e mais capas, cada vez mais sombrias, escuras e feias, para esconderem o seu interior. Aos poucos e poucos foram-se tornando em vulgaríssimas cebolas.
Algum tempo depois passou pela horta um sábio que andava à procura de um lugar calmo, silencioso e fresco para descansar. Ao deparar-se com o estranho fenómeno das cebolas pergunto-lhes por que motivo elas não se davam a conhecer como eram por dentro. Elas iam respondendo que tinham sido obrigadas a fazê-lo, que o fizeram por uma questão de segurança, que já nem se lembravam porque o tinham feito…
Por fim, o sábio pôs-se a chorar.
Quando as pessoas o viram chorar, pensaram que pôr-se a chorar diante das cebolas era próprio de pessoas inteligentes.
É por isso que ainda hoje continuamos a chorar, sempre que uma cebola nos abre o seu coração.
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