tragam
chocalhos em as bestas em que venderem água”.
Durante muitos
anos, o único ponto de abastecimento de água
dentro da cidade foi chamado Poço d’Alcalá,
de origem árabe, e que se terá situado
nas proximidades das actuais instalações
da Polícia de Segurança Pública,
edifício que foi Paço Episcopal. O
problema da localização exacta deste
poço não está resolvido, sabendo-se
apenas que a ele se referem alguns documentos como
o tombo da fazenda municipal de 1628 onde se menciona
uma “rua que vai da praça (actual Praça
da República) para o poço d’Alcalá”.
Ainda no século
XV, o bom funcionamento deste poço devia
ser de grande interesse para a população,
pois os procuradores às cortes de 1498,
convocadas por D. Manuel para Évora, lembravam
a este rei uma promessa por ele feita de mandar
reconstruir o Poço d’Alcalá.
Apesar de cumprida a promessa com a autorização
dada à Câmara para lançar
um imposto de um real em cada arrátel de
carne e peixe e em cada quartilho de vinho, as
verbas assim obtidas não foram suficientes
para obstar à progressiva ruína
do poço e à sua incapacidade para
abastecer uma população que, na
época, deveria rondar as nove mil almas.
Foi, seguramente,
perante a degradação deste poço,
único ponto de recolha de água potável
dentro da cidade e a impossibilidade de os açacais
proverem eficazmente às necessidades de
consumo de uma já tão numerosa população,
que a ideia de construir um aqueduto que trouxesse
a Elvas a água das redondezas se afirmou
como a única forma de resolver tão
grave problema, com carácter definitivo.
Assim se iniciaram,
nos princípios do século XVI, de
acordo com Vitorino de Almada, os trabalhos de
construção do Aqueduto da Amoreira,
obra monumental que continua a ser motivo de admiração
de quantos nos visitam. O insigne historiador
arrisca mesmo a data de 1529, com base documental
bastante segura, para o começa das primeiras
pesquisas da água da Amoreira, da respectiva
fonte e primeiros encanamentos.
Até 1537,
no entanto, as obras pouco progrediram, talvez
pelo facto de o imposto de um real por cada canada
de vinho, arrátel de carne e peixe não
ser suficiente para custear as despesas.
A partir deste
ano, porém, um novo impulso foi dado aos
trabalhos com a chegada, anunciada por carta de
D. João III, do arquitecto Francisco de
Arruda, o qual demonstrou serem necessários
mais sacrifícios do povo para permitir
a construção do aqueduto. A aplicação
rigorosa de multas por transgressão de
posturas passou a constituir uma fonte de receita
importante para aplicar na obra da água
da Amoreira. Até as pessoas que tinham
obrigação de estar presentes na
procissão do Corpo de Deus de 1539 e faltaram
foram multadas em 10 cruzados. Como as despesas
aumentavam, porém, a ritmo acelerado, foi
necessário recorrer a vários empréstimos
do cofre dos órfãos, quer de Elvas,
quer de Estremoz e Portalegre. Com estes meios
e o engenho de Arruda, que se aplicou esforçadamente
à obra, foi possível construir os
primeiros seis quilómetros de aqueduto
até 1542, chegando os arcos até
às proximidades do Convento de S. Francisco,
cujos frades obtiveram a concessão gratuita
de água para a sua horta.
Se a maior extensão
do aqueduto estava vencida, faltava concretizar
a parte mais difícil, aquela em que os
arcos iriam atingir maior altura, subindo também,
quase na mesma proporção, as despesas.
Havia, pois, que encontrar novos recursos: a venda
de ofícios públicos foi um expediente
encontrado, apesar das implicações
negativas de tal medida. O aumento dos gastos
elevou-se, entretanto, a tal ponto que obrigou
à suspensão dos trabalhos nos finais
de 1547. Nos vinte e dois anos que se seguiram
nada mais se acrescentou ao que estava. Foram
anos difíceis para o povo de Elvas que
quase desacreditou da possibilidade de ver jorrar
a água da Amoreira dentro dos muros da
cidade.
Finalmente em
1571, tendo já subido ao trono D. Sebastião,
decidiu levar por diante a conclusão da
obra, ainda que à custa de mais sacrifícios
de toda a população. Foi, então,
lançada uma derrama sobre todos os moradores,
para além das várias imposições
que já vinham de trás. Assim se
tornou possível prosseguir os trabalhos
até 1580, ano da morte do Cardeal Rei.
Os acontecimentos que se seguiram e a subida ao
trono de Filipe I determinaram uma nova interrupção
da obra do Aqueduto da Amoreira, até 1598,
ano em que o povo da cidade decidiu que era preciso
continuar os trabalhos, ainda que à custa
de mais sacrifícios.
Já nos
finais da primeira década do século
XVII, prosseguindo a construção
com grandes dificuldades financeiras, concluiu-se
que era necessário dar mais altura ao aqueduto
a fim de permitir que a água chegasse,
pelo menos, ao Largo da Misericórdia, muito
embora se tivesse ambicionado levá-la mais
longe. Esta circunstância acrescentou novas
dificuldades e demoras ao prosseguimento dos trabalhos.
Ao longo dos muitos anos que o aqueduto já
levava de construção, numerosas
foram as vezes em que este foi alvo de pequenas
sabotagens, para lhe roubar a água, e até
de falta de seriedade por parte dos empreiteiros
que iam ganhando as arrematações,
já que a obra se fazia por empreitadas.
No ano de 1615,
todavia, as coisas foram longe demais, visto que
os fiscais da Câmara, praticamente, deixaram
de exercer a sua função, atendendo
à altura do aqueduto e à fragilidade
dos andaimes, o que muito os assustava. Esta circunstância
deu azo a que o empreiteiro de então, Miguel
Martins, para abreviar a conclusão da empreitada,
não cumprisse com as exigências de
uma sólida construção. Quando
repentinamente se manifestaram algumas ruínas
e os fiscais da Câmara não puderam
mais adiar o cumprimento das suas obrigações,
descobriram que era preciso acudir rapidamente
à consolidação da obra para
evitar uma grande ruína. Foi, então,
afastado o desonesto empreiteiro mas o que o substituiu
não foi capaz de evitar aquilo que todos
temiam: a fragorosa queda de vários arcos.
Pacientemente, mais uma vez o povo de Elvas se
resignou a suportar novos sacrifícios para
ver terminada uma obra que se arrastava há
oitenta e seis anos.
Ao que refere
Vitorino de Almada, em 1620 já corria a
primeira água do aqueduto dentro dos muros
da cidade, ali nas proximidades da então
Igreja da Madalena, hoje de Nossa Senhora das
Dores, em fonte provisória. Só em
1622, no entanto, terminada a construção
da fonte da Misericórdia em frente da Igreja
do mesmo nome, se deu por cumprido o sonho de
tantas gerações de dar de beber
a água da Amoreira ao esforçado
povo de Elvas.
A 23 de Junho
fazia-se a inauguração oficial,
animada com numerosos festejos, desde corridas
de touros na praça até jogos a cavalo
e danças populares, tudo ao som das charamelas.
Começava finalmente uma nova era de progresso
para a população da cidade. Para
alcançar tal desiderato, todavia, era ainda
necessário fazer chegar a água à
parte baixa da cidade, para o que se tornava necessário
lançar os canos que iriam abastecer as
novas fontes, obra que só veio a concluir-se
alguns anos mais tarde.
Chegados os trabalhos
a este ponto, poderia pensar-se que o povo de
Elvas iria agora ficar aliviado dos pesados sacrifícios
financeiros a que se vira constrangido durante
mais de um século: mas não. As obras
do aqueduto parecia não quererem terminar
mais. Estava construído, mas tornava-se
necessário reforçá-lo com
uma série de contrafortes, pois as ameaças
de ruína eram constantes. E, assim, se
iam mantendo e até aumentando, não
só o real d’água como outros
impostos.
Com o golpe do
primeiro de Dezembro de 1640, a restauração
da independência foi uma realidade que viria
prolongar e agravar os sacrifícios do povo
desta cidade fronteiriça. As necessidades
de defesa levaram imediatamente alguns engenheiros
militares a pôr a hipótese de derrubar
o aqueduto por constituir um obstáculo
à construção das novas fortificações
segundo o sistema abaluartado, então em
voga em toda a Europa. Outros, no entanto, achavam
mais prudente não o fazer, pois tal constituiria
uma afronta ao sacrificado povo de Elvas num momento
em que tanto se iria exigir dele face às
guerras que se avizinhavam. E, para o salvar,
defendiam a necessidade de construir um grande
reservatório que permitisse recolher a
água do aqueduto em abundância suficiente
para permitir o abastecimento da população
em caso de sítio.
Os engenheiros
militares, no entanto, à medida que o recinto
amuralhado ia avançando e era preciso fechá-lo
na zona em que o aqueduto penetrava na cidade,
lograram convencer D. João IV de que o
seu derrube era inevitável em nome do valor
mais alto que era a fortificação.
Colocada a questão, para decisão
final, a el-rei, este pronunciou-se pelo derrube,
embora apenas da parte dos canos que estavam a
cortar o passo ao avanço da muralha.
Foi o Conde de
S. Lourenço, governador da Praça
e natural de Elvas, a quem doía tanto a
resolução tomada como ao resto da
população, que resolveu fazer uma
representação a Sua Majestade para
o convencer da terrível injustiça
que significaria para os elvenses o cumprimento
de tal medida. Enquanto se esperava pela resposta
e talvez convencido de que seria positiva, ordenou
a construção de um enorme depósito
para as águas do aqueduto que veio a ficar
conhecido pela designação de Cisterna.
Chegada, finalmente, a resposta favorável
do monarca, a dificuldade resolveu-se com a construção
de um cano subterrâneo, através do
fosso, ligando o aqueduto à cisterna. Quando,
em Setembro de 1658, D. Luís de Haro pôs
cerco à cidade, que preludiou a batalha
das linhas de Elvas em 14 de Janeiro do ano seguinte,
não ousou tocar no aqueduto, que continuou
sempre a fazer chegar a água à cidade.
O Aqueduto da
Amoreira, edificado ao longo de tantos anos e
reforçado durante outros tantos mais, constitui
uma obra de assinaláveis proporções
que se desenvolve, desde a nascente principal,
em galerias subterrâneas na extensão
de 1.367 metros (mil trezentos e sessenta e sete),
depois ao nível do terreno durante 4.049
metros (quatro mil e quarenta e nove) e finalmente,
em arcadas com um percurso de 1.638 metros (mil
seiscentos e trinta e oito), até à
entrada das muralhas, num total de 7.054 metros
(sete mil e cinquenta e quatro).